[[legacy_image_314093]] A vitória de Javier Milei na Argentina pode ser explicada de modo racional. Diante de quadro de agonia e decadência que se arrasta há décadas, e que culminou com a inflação de 143% em doze meses e com mais de 40% da população em situação de pobreza, a maioria dos eleitores rejeitou o candidato governista – ainda pior, atual ministro da Economia - e optou pela oposição. Os argentinos cansaram-se. Durante 40 anos após a redemocratização do País, os governos foram, na sua maioria, peronistas, com breves hiatos da centro-direita tradicional, e nenhum deles foi capaz de melhorar a grave situação econômica, social e política. O saldo acumulado é corrupção, desemprego, perda de qualidade de vida, falta absoluta de esperanças. Não surpreende que um outsider da política tenha sido escolhido. Mas há elemento que merece atenção na vitória de Javier Milei. É evidente que ele surgiu como alternativa à tragédia que aí está na opinião da maioria. Mas é preciso ir além, e notar a bem-sucedida construção da imagem por ele realizada. Ao participar de programas de TV há alguns anos, usando e abusando de ataques pessoais, com permanente incontinência verbal, tornou-se personagem notado como combativo, verborrágico, que gritava o tempo todo, não hesitando em ser polêmico a cada intervenção. A forma importava mais do que o conteúdo, mesmo que este contivesse ideias antifeministas e misóginas. Os eleitores descontentes viram nele alguém capaz de virar a mesa, e sentiram-se representados por alguém que criticava, com contundência, a política tradicional e indicava caminhos, mesmo extravagantes, como o fechamento do Banco Central Argentino e a dolarização da economia nacional. Suas ideias são alinhadas à extrema-direita, mas Milei é mais do que um Trump ou Bolsonaro: seu discurso anarco-capitalista é peculiar e sua radicalidade explosiva mais intensa. Javier Milei foi ao encontro do inconsciente dos argentinos, com maestria. Soube explorar o desejo dos eleitores (alinhado com o desespero vigente), fazendo com que estes deixassem de lado vontades, estas sim produto da racionalidade. Criou ambiente de imagens, signos e palavras que deram sentido ao que se pode chamar de Imaginário, a partir do qual os indivíduos se conectam a identificações que os atendam. A imagem de um político-candidato não é simplesmente seu retrato, sua figura. É muito mais do que isso: representa sua reputação e sua marca, como percebidas pela população. Milei foi capaz de, com seu simbolismo teatral (motosserra nos comícios, acusações a tudo e a todos), apelar fundo ao inconsciente coletivo. Prova disso foi o debate com seu adversário Sergio Massa pela televisão: seu desempenho foi fraco e os analistas consideraram o candidato governista como vitorioso. Não adiantou, porém: seduzidos e anestesiados pelo personagem, que falava à alma e ao coração dos eleitores, deram a ele uma vitória muito maior do que o previsto pelas pesquisas. Na política, como na sociedade moderna, há elementos novos e estranhos. O Imaginário se opõe ao pensamento racional, e recusa nele o que é lógico e o conhecimento de limites pela experiência. A tragédia argentina é real, e explica Milei. Mas ele é o produto de complexa rede de símbolos e signos, que a extrema direita tem sabido explorar muito bem.