(Reprodução/Pixabay ) Há nove meses Solange convivia com um homem feio. E não poderia estar mais feliz. Para ela, as mil qualidades de Marcos compensavam a feiúra. Ele reunia todas as virtudes que uma mulher poderia sonhar em um companheiro. Ela o chamava carinhosamente de “meu querido feinho”. E enumerava seus muitos atributos: sincero, não mente, não bajula, é cavalheiro, solidário, simples, modesto, compreensivo, generoso. Usava imagens: é uma graça, um bombom, um doce de coco. Um homem perfeito? Ela sentia que sim. Solange sempre havia namorado homens bonitos. Foi assim também com André, o mais recente antes de Marcos, o feio. Após 18 anos de convivência, o bonitão a trocara por uma jovem mais nova. Então, ela decidira só dar chance a homens feios. Marcos chegou com o início da ditadura. Prisões, torturas, assassinatos. Ele sempre fora um esquerdista democrático. Mas ao constatar que essa posição moderada nada prometia contra a força bruta, resolveu aderir à guerrilha. Desde a chegada, seus superiores perceberam que ele não reunia boas condições para a linha de frente. Intelectualizado, seu forte era a estratégia. O movimento logo concluiu que ele era um quadro extremamente importante. Mais que isso, indispensável. Que deveria ser protegido de todas as formas. Para garantir que Marcos jamais cairia nas malhas da ditadura, surgiu uma solução que o transformaria em um corpo fechado. Uma cirurgia plástica. Ela o transformaria de feio em bonito. Com sua fisionomia inteiramente alterada, ele poderia ter uma razoável liberdade de movimentos. Mudou-se com Solange para um bairro discreto. E usava como disfarce a condição de dono de um pequeno comércio que a guerrilha criara para ele. Bonitão, o risco era fatal. E não demorou. Mulheres lindas começaram a assediá-lo. Algumas até confessavam morrer de paixão por ele. A primeira consequência foi a quebra da fidelidade conjugal. Ele ainda se gabava, para os amigos mais íntimos, de fora da guerrilha. “Sou um profissional. Não me deixo apanhar. Solange nem desconfia”. Ela poderia não desconfiar desse passo em falso. Mas tinha certeza de outros pecados. Todas as belas qualidades de Marcos foram desaparecendo. Ou diminuindo fortemente de intensidade. A beleza física instalara no feinho os graves defeitos de André. E de todos os bonitões. Solange estava chocada. A gigantesca felicidade dos últimos nove meses tinha ido embora. Passou a odiar a cirurgia plástica. E a guerrilha. No seu horizonte começou a surgir, como um fantasma, a triste possibilidade de deixar seu companheiro. O dito acaciano ecoou em seu ouvido. Antes só do que mal acompanhada. *Carlos Conde. Jornalista