Sou cria do Macuco. Não que tenha morado lá a vida inteira, mas foi ali que me formei e, por obra do destino, grande parte da minha vida girou em torno daquele pedaço: escola das crianças, trabalho da esposa, igreja que frequentávamos. Por um tempo, morei no Marapé, quase um bairro-irmão do Macuco. A Avenida Carvalho de Mendonça bem que poderia se chamar “Marapé-Macuco”, como a Jacu-Pêssego em São Paulo ou o antigo bonde da Augusta “Mandaqui-Pinheiros”. Recentemente, vim parar no Gonzaga. Orla da praia — minha primeira experiência assim em mais de 60 anos de Santos. No Macuco e no Marapé, a gente se localiza assim: – “É o sobrado de três andares depois da padaria...” – “O prédio marrom antes da farmácia...” No Gonzaga, é diferente. As pessoas falam com orgulho: – “Eu moro no Cambuí.” – “Eu moro no Van Gogh.” – “Eu moro no Dinorah.” Nome de prédio no Gonzaga tem peso. Já nos bairros, muitas vezes não serve para nada. Construtoras repetiam nomes com números romanos: Luso X, Luso XI, Luso XII... ou criavam uma sopa de letras e algarismos. Algumas ruas usam o nome da rua: Condomínio Tocantins, Edifício Tocantins, Residencial Tocantins... Há ainda prédios na divisa de bairros mais famosos que se aproveitam disso: nasce o “Portal do Morumbi” ou o “Novo Embaré”. O prédio está no Macuco, mas como o Embaré fica a duas quadras, pronto: “Novo Embaré”. Quando um bairro ganha status, tende a se expandir no imaginário. Sempre digo que o maior bairro do mundo é o Morumbi: vai da Ponte da Cidade Universitária até a Ponte João Dias e até Taboão. E muitos em Taboão juram morar no Morumbi. Brincadeiras à parte, o Gonzaga é uma delícia. Sempre o associei a cinemas, bares, shoppings. No começo, confesso, até ficava sem graça de descer para ir à padaria ou à farmácia — reparava na roupa que estava usando. No Macuco a gente vai de pijama sem pensar duas vezes. Aqui, eu jamais faria isso. Mas, com o tempo, percebi: o pessoal também desce com o cachorro, vai à padaria no mesmo horário todo dia e, sim, até de pijama. No fim das contas, é tudo igual. Somos seres humanos, vivendo um dia de cada vez. Às vezes rimos, às vezes choramos, mas seguimos combatendo o bom combate — seja na orla ou no bairro. *Paulo Prol Medeiros. Consultor de Comércio Exterior, escritor graduado em Filosofia, cursando Pós em Teologia