(Imagem ilustrativa/Pexels) Você já parou para pensar quantos Mozarts, Beethovens, Van Goghs, Picassos, Einsteins ou Machados de Assis anônimos existiram ao longo da história? Milhões, certamente. Suas obras – maravilhosas e superiores às dos grandes mestres – se perderam. Partituras e quadros incríveis, equações mirabolantes e originais de livros magníficos viraram pó e foram lançados ao lixo, sem dó ou piedade, por eles mesmos ou por outros. É fato ainda que muitos dos gênios nunca foram reconhecidos em vida, e o reconhecimento só veio muito tempo depois. Na verdade, o sucesso tem boa dose de acaso, como tudo na vida. Não quero com isso afirmar que tudo é imprevisível e não cabe talento, esforço e dedicação para se alcançar objetivos. Mas é fato que o acaso está em cada esquina e a cada dobra de nossas vidas. Tendo a concordar com Maquiavel, outro gênio cuja obra foi um tanto desmerecida pelo tempo. Para ele, metade das ações humanas é movida pela vontade e engenho humanos, mas a outra metade acaba regida pelo acaso, pelo imponderável, por circunstâncias imprevistas e imprevisíveis que se oferecem a cada um. Faça você um exercício de memória. Quantos erros e avaliações equivocadas foram cometidos, quantas omissões e falhas fizeram parte de sua existência. Ninguém, é claro, erra sempre – há certamente acertos e bons momentos – mas o balanço nem sempre é positivo. E as escolhas e decisões são muitas vezes movidas por boa dose de imprevidência e irreflexão. Carreiras, profissões e amores estão nesta relação. Duvido bastante das vocações inatas – ir por este ou aquele caminho profissional é fruto do acaso na maioria dos casos, e provavelmente modificado ao longo da vida. Não se trata de remorso ou penitência permanentes. Afinal, somos humanos, e como tal sujeitos a toda sorte de erros, alguns imediatamente percebidos, outros nunca admitidos. Somos movidos pela busca incessante de poder e glória, não é mesmo? O desejo de poder, ainda que em ambientes restritos, é forte e intenso, e glória – consequência do sucesso – é aspiração presente nas ações humanas. O diabo é que fracassamos nessa luta. Não somos gênios e não alcançaremos destaque em nossas vidas, mesmo com algum talento aqui e ali. Paciência. Talvez o desafio de viver bem, sem tragédias ou culpas, seja admitir nossa condição limitada. Isso não nos deve servir de desculpa para jogar tudo para cima do acaso – Maquiavel já dizia que metade das nossas ações diz respeito aos nossos esforços – mas é forçoso reconhecer que, afinal, não nós eximimos de fracassar todos os dias, dizendo coisas erradas a pessoas especiais, fazendo coisas que as molestam e provocam sofrimento, não percebendo, muitas vezes, que deixamos a felicidade e os sonhos se esfumarem, por medo, descuido e precipitação. Ainda assim, viver vale a pena, sempre. Apesar dos fracassos e derrotas que teimam em nos perseguir, todos os dias. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos (UniSantos) e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)