( Adobe Stock ) Dizem que os olhos revelam mais do que a boca ousa dizer. Talvez seja exagero, talvez não — mas é verdade que eles falam antes das palavras, e às vezes falam melhor. Pelas pupilas passam não só imagens, mas humores, dúvidas e intenções que nem sempre temos coragem de admitir. Um olhar pode aquecer ou afastar. Pode levantar muralhas ou oferecer abrigo. A distância entre sobrancelhas, o meio-fechar das pálpebras, um brilho que dura meio segundo — tudo isso denuncia mais do que gostaríamos. Há olhos que se abrem como se o mundo tivesse acabado de lhes saltar à frente; outros se estreitam, desconfiados, tentando enxergar o que preferiam não ver. A linguagem percebeu isso antes de nós. “Comer com os olhos”, “correr ou passar os olhos” em alguma coisa, “andar de olho” em alguém, “abrir os olhos” para determinados fatos, “ter olho grande ou gordo”. Há também os que “pregam o olho”, os que veem “a olho nu”, e aqueles que avaliam o preço de um azeite como se estivesse o “olho da cara”, ou ficarmos de “olhos fechados” para a inovação. Não inventamos essas expressões por acaso: elas traduzem o quanto ver ultrapassa o ato de enxergar. Porque perceber é outra coisa. Perceber é interpretação, leitura silenciosa do outro. Um par de olhos muito abertos pode gritar espanto, medo ou deslumbramento. Já os semicerrados — ah, esses são especialistas em revelar desconfiança, cálculo, ou o desejo secreto de mirar além da linha do horizonte. Olhos não servem apenas para registrar o que está diante de nós, mas para sustentar o que tentamos esconder. Por eles acolhemos o mundo — e por eles devolvemos, às vezes sem querer, aquilo que fingimos não sentir. Cada olhar traz um rastro: de ternura, de dúvida, de cansaço, de quem já viu demais ou de quem ainda não aprendeu a olhar. Fique de olho. Cuide deles. E, sobretudo, cuide daquilo que mostra sem perceber — porque, no fim, ninguém enxerga só com o que os olhos veem. *Marcio Aurelio Soares. Médico