(Freepik) A infância brasileira vive uma transformação silenciosa. As telas, as redes sociais e, mais recentemente, a inteligência artificial passaram a fazer parte do cotidiano de crianças e adolescentes, mudando a forma como aprendem, se relacionam e percebem o mundo. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, 93% dos jovens de 9 a 17 anos acessam a internet e 65% já utilizam ferramentas de IA generativa — não só para estudar, mas também para criar textos, imagens e até conversar sobre sentimentos. Esses dados mostram que a tecnologia chegou antes de o debate sobre seus impactos amadurecer. Se, por um lado, a IA estimula o aprendizado criativo e a inclusão digital, por outro, expõe vulnerabilidades que exigem atenção. A pesquisa aponta que 20% dos adolescentes já receberam mensagens de conteúdo sexual e muitos relataram contato com materiais violentos ou discriminatórios. Por trás de cada número há uma história e um risco invisível, que transforma o ambiente digital em território de possibilidades e perigos. O desafio não é conter o avanço tecnológico, mas garantir que ele seja humano. A IA pode ser uma aliada da educação e da saúde mental, desde que venha acompanhada de políticas públicas sólidas e de um pacto social de responsabilidade compartilhada. Nesse contexto, ganha força o debate sobre um ECA Digital, uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para a era das conexões. Assim como o ECA de 1990 foi um marco de proteção, sua versão digital deve assegurar o direito à privacidade, à segurança e à educação midiática. Outros países já seguem esse caminho. A União Europeia criou o Digital Services Act, que impõe regras às plataformas para proteger menores. Organismos como a Unesco e a Unicef defendem o “design ético”, que obriga sistemas a respeitarem as vulnerabilidades da infância. O Brasil, embora possua a Lei Geral de Proteção de Dados, ainda carece de medidas específicas para o ambiente digital infantil e de capacitação para pais e educadores. Cuidar da infância no século 21 é entender que o cuidado também é tecnológico. Não se trata de afastar as crianças das telas, mas de ensiná-las a usar a tecnologia de forma crítica e segura. Isso requer educação digital nas escolas, campanhas de orientação familiar e políticas públicas integradas. Proteger não é proibir — é preparar. A geração que cresce cercada por algoritmos não precisa de medo, mas de ferramentas para compreender o mundo digital e agir nele com autonomia e empatia. A infância do futuro já começou, e o modo como a protegermos hoje definirá o tipo de humanidade que teremos amanhã. *Marcos Vinicios Santos. Estudante e pesquisador em Direitos Humanos