Comecemos com uma hipérbole e um personagem, ambos nascidos no universo rodriguiano. Nelson Rodrigues, cronista e dramaturgo, amante do futebol e fanático pelo Fluminense, e irmão de Mário Filho, rubro-negro confesso, fundador do Jornal dos Sports, responsável por dar ao esporte uma linguagem popular, feita de paixão e drama. Não à toa, empresta seu nome ao maior palco do futebol: o Maracanã. Eis a primeira dupla: Fla x Flu, literatura e arquibancada. O Fluminense, o único clube cujo nome atravessa a letra de seu maior rival. Pois vejamos. O hino do Flamengo, composto em 1942, por Lamartine Babo, torcedor do América e arquiteto de todos os hinos cariocas, diz assim: “Consagrado no gramado, sempre amado. O mais cotado no Fla-Flu é o ai, Jesus”. Pois então, é aí que irrompe o Fluminense convocado pelo Sobrenatural de Almeida, uma entidade invisível, zombeteira, encarnado no espírito de Lamartine. Que se diverte também ao interferir no destino das partidas. Se não fosse assim, como explicar o gol do jogador-presidente John Kennedy, na prorrogação do jogo da final da taça Libertadores de 2023. Sorte? Milagre? Nada disso. Puro Sobrenatural. Ruy Castro, biógrafo e cronista do jornal Folha de São Paulo, autor de O Anjo Pornográfico, a biografia definitiva de Nelson, publicou recentemente duas colunas relatando sua conversa de botequim com o historiador Marcelo Dunlop. Competiam para ver quem conhecia mais torcedores ilustres de Flamengo, Vasco e Botafogo. E, por óbvio ululante, esqueceram-se, de propósito, é claro, de Santos e Fluminense. E ainda cometeram uma heresia. Ruy chegou a citar a Fernanda Torres como rubro-negra. Tremenda inverdade. Jamais Fernanda, nossa atriz oscariana, filha de Fernando Torres e Fernanda Montenegro, ambos tricolores, abdicaria da honra de torcer pelas “três cores que traduzem tradição”. Esqueceu, o consagrado escritor, de Pixinguinha, de Tom Jobim, de Chico Buarque, de Cartola, cujas cores da Escola de Samba Mangueira foram inspiradas no clube das Laranjeiras, de Jô Soares, de Oscar Niemeyer, todos tricolores de carteirinha. Mas quem teria mais celebridade em suas arquibancadas? Passando pela vila mais famosa do mundo, a do senhor Belmiro, onde suas ruas nos levam ao estádio Urbano Caldeira, estavam Chorão, Ney Latorraca, Marcelo Tas, Eduardo Suplicy, o vice-presidente Geraldo Alckmin. Além do maior de todos, o Rei Pelé, que só a Vila tem. Que cada arquibancada guarde seus heróis, suas cores e suas lendas. Porque, no fim das contas, o que decide mesmo é o Sobrenatural de Almeida — e o resto é apenas óbvio ululante. *Médico