Imagem ilustrativa (Reprodução/Câmara Municipal de São Paulo) No entardecer de um dia quente no Paço Imperial, onde foi firmada a Independência, o cenário parecia apenas histórico. Mas bastaram poucos instantes de descanso para que o passado ganhasse voz. José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, aproximou-se como se saísse das paredes da memória nacional. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Meu projeto para o Brasil era o de uma nação instruída, justa e soberana. Sonhava com uma monarquia constitucional ilustrada, onde o imperador unisse e o povo agisse pela lei. Defendi a abolição gradual da escravidão, a inclusão dos povos indígenas, a valorização da educação pública e o fortalecimento da identidade nacional”, disse ele, com a voz de quem ainda acreditava no ideal. Com os olhos marejados, confessou sua frustração: “Fui traído por ambições mesquinhas. Expulso por defender ideias fundadoras. O Brasil que imaginei não era apenas independente — era civilizatório”. Em resposta forneci uma crítica atual: o Brasil virou país de castas. A elite econômica, agora com novos instrumentos — “incentivos”, lobbies, mídias e partidos —, continua a concentrar poder. A abolição que Vossa Excelência vislumbrou não veio acompanhada de reforma fundiária ou justiça social. A senzala virou favela; a chibata deu lugar ao abandono institucional. “O indígena, que o senhor quis cidadão, segue perseguido. A ciência, que o senhor exaltava, é hoje atacada. E o país mineral que defendia virou colônia do capital externo. A sua civilização brasileira foi interrompida por golpes e populismos”, argumentei com a voz do presente. Bonifácio escuta com gravidade. “Não falhei sozinho. Mas ainda há tempo. O Brasil precisa reencontrar seus Andradas, suas Leopoldinas, seus Joaquins Curados — gente que coloque o bem comum acima do pessoal”. Questiona-me o estadista — “Como você escreveria o próximo capítulo?” — minha resposta é direta: limitar mandatos políticos, abolir carreiras vitalícias, instituir trabalho político voluntário em pequenas cidades e adotar o parlamentarismo. É preciso oxigenar a república. Bonifácio sorri cauteloso. “Propostas como essa são a refundação ética da Nação. Expurgar o vício da perpetuação, romper a promiscuidade entre mandato e riqueza. Trazer de volta a virtude do bem comum.” Mas adverte: “A virtude não se decreta. Educar para ela será a missão mais difícil.” Ao fim do encontro onírico, Bonifácio oferece sua pena simbólica: “Toma. Escreve o novo projeto de Constituição. Que seja da nação para o futuro.” Quando lhe é dito o título — “Brasil no presente, o compromisso com o futuro” — o Patriarca se curva levemente, como diante de um voto sagrado. “Teu título é mais que um ideal — é uma promessa. Que cada geração preste contas não só ao passado, mas às que virão”. E então, inspirado, sugere o preâmbulo: “Nós, brasileiros do presente, conscientes das cicatrizes do passado e das promessas ainda não cumpridas, firmamos este compromisso com o futuro: que o poder não seja herança, mas serviço; que a política não seja negócio, mas vocação; que o Brasil se torne, enfim, pátria de justiça, memória e esperança”. Um fraco lufar o retorna ao passado e me faz despertar com a certeza: o sonho de Bonifácio ainda pulsa, à espera de quem o escreva com coragem.