(Reprodução/X) Guimarães Rosa capturou muito bem a essência da alma humana, revelando profundidades e contradições. Olhar sensível, traduziu os dilemas entre o ser e o desconhecido, trazendo reflexões universais e atemporais. Guimarães escreveu: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. A ideia ecoa como uma verdade, escondida à vista. Terceira margem equivale ao meio do processo, tudo constitui dúvida e movimento. Difere de permanecer em cima do muro. Não é destino, também não é origem. Um estado de ser, uma constante busca que nunca termina. Há algo de profundamente humano nisso, nessa necessidade de procurar mesmo sem saber exatamente o quê. Existe um espaço entre os extremos que ninguém consegue alcançar, creio eu, como se, entre o ir e o ficar, houvesse um terceiro caminho - invisível, intocável, mas pulsante como o coração da própria dúvida. Vejo em cada escolha feita, mesmo quando não o escolho. Uma terceira margem, intocável pela terra de onde vim e pela correnteza que me leva. Intervalo do silêncio fala, lá no tempo parado, sou apenas eu – sem adornos, cercando e definindo-me. Esse espaço sempre está presente. Cresceu comigo, mesmo antes de perceber sua existência. Linha tênue, ainda não delineei, acompanha-me como uma sombra. Lacuna entre quem sou e quem poderia ser, o vazio vigilante olhando para dentro de mim. Não sei quando comecei a notá-lo de verdade, mas hoje ele é inescapável. Não grita, não pede atenção, sua presença é insistente. Impossível ignorá-lo por muito tempo. Tento e, às vezes, parece responder-me. Outras vezes, sinto falando comigo mesmo, tentando organizar o caos interno. Há dias necessários para expandir, ocupando os espaços, transformando o mundo ao meu redor em um vasto território de incertezas. Outros dias, se recolhe, quase desaparece, nunca completamente. Fascinante como algo impossível de tocar ou medir, existe em cada ato, em cada pensamento. Presente quando hesito, quando escolho e quando tento fugir das escolhas. Reflexo mais fiel do meu Eu. Imperfeito, sim, mas verdadeiro, pois nele residem minhas certezas e minhas contradições. Escrever, percebo agora, é meu jeito de navegar por essa terceira margem. Cada palavra é um remador avançando, sem saber onde chegar. Talvez eu seja isso também: uma busca sem chegada. Não no rio, não no mundo. Apenas no que sou e no que me torno. Nesse momento, enquanto as palavras se formam, penso no escrever como maneira de tentar conter o indizível, cercar o infinito. A escrita, por mais distenda, é só outra margem. A terceira, no fim, está dentro. *Jardel Pacheco. Escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais