(Imagem ilustrativa/Pexels) A virose mudou minha rotina. Nem saraus, cinema, teatro, impedida até de escrever e aquarelar. Em repouso absoluto. Inerte, lembrei das cigarras presas no casulo, saindo para cantar até morrer. A filha marcou uma consulta inesperada. Difícil explicar o que senti diante das considerações do neurologista: O ego exacerbado torna quase impossível perceber que não somos tão especiais. Para crescer é preciso renunciar a algumas coisas e se construir uma identidade. Encarando-me com seu olhar bondoso, firme e penetrante, continuou: Aos 82 anos é preciso aprender a dizer ‘não’. No decorrer da conversa percebi que preciso entender a mim mesma, essa mulher agora desconhecida. Refazer a agenda, diminuindo os compromissos. Esquecer aprendizagens e conceitos arraigados. Desaprender o antigo prazer de aceitar todas as solicitações, sem medo de ‘perder o cartaz’ com os amigos. Participar de alguns possíveis encontros, sem coordenar o grupo. Delegar posições, sentindo o prazer de chegar ‘no vazio’ e conhecer o assunto na hora. Entregar-se à fala do outro, sem a obrigação de se posicionar. Apenas estar. Voltar para casa sentindo-se leve, querendo espreguiçar feito o gato da amiga e adormecer no abençoado silêncio. O clinico geral, amigo há tantos anos, faz ligações pelo celular, explicando a necessidade de repouso, hidratação e alimentos leves. No último item contraria o neuro (coma o que tiver vontade; compartilhe o vinho, comedidamente e uma cerveja sem álcool, nos fins de semana). Reforça que a pressão dos idosos e dos recém nascidos se assemelham por ser sujeitas a variações. O que me intriga é a questão do ego. Quando crio um texto ou faço uma aquarela, estou na solidão, num estado de tensão, na busca. Quero uma expressão de qualidade, com minhas impressões e sentimentos. Uma criação em profundidade, sem medo de que apontem – “O rei está nu”!, porque será verdade. E volto ao haicai, que não consigo (e não quero) abandonar. Roland Barthes, escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês, dizia, “O que consigo perceber do pensamento oriental, por reflexos muito distantes, me permite respirar. ” Porque o pensamento oriental, que ele não pretendia conhecer em profundidade, fornecia-lhe “fantasias pessoais de suavidade, repouso, paz, ausência de agressividade”. Este é o Barthes final, que continuava tendo como inimigos o senso comum, a arrogância intelectual, o dogmatismo científico ou político e, como objetivos a alcançar, a “palavra calma”, a prática do Neutro e o prazer do texto. O Neutro é uma “terceira via”. Não se deixa apreender de forma dogmática e sistemática. O caráter filosófico do Neutro visa a uma ética, pois conduz a uma “felicidade”. A teoria barthesiana é uma teoria mutante. Evolui e se transforma ao longo dos anos. Com Raul Seixas entendo que é melhor não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. É difícil, na velhice, aceitar o que não é meu desejo. Ah, os versos de Caetano Veloso, ao querer assim infinitamente pessoal, aprender o total do querer que há, e do que não há em mim. Médicos, filósofos, músicos, haicaístas, enfim, os ‘neutros’ me salvam. *Regina Alonso. Escritora, membro das Academias Santista de Letras, Vicentina de Letras, Artes e Ofícios e Letras, Artes e Ofícios de Praia Grande