Imagem ilustrativa (Freepik) A existência é evolutiva. Provavelmente, num futuro não muito distante, a escrita e o escritor não se farão presentes entre os mortais, e os imortais também padecerão as consequências. Não mais estarão nas prateleiras das livrarias e bibliotecas, tampouco em nossas casas, mas sim nas memórias dos velhos computadores, em discos rígidos, disquetes, pen drives. Voarão, olvidados, nas nuvens, torcendo para que nenhuma grande tempestade elétrica os desconecte, perdendo-se nos labirintos do tempo. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Seremos personagens das ficções de Guimarães Rosa, José Saramago e Mia Couto, presos em um futuro, contidos em uma única frase: quem lê, alimenta a alma e a mente; quem escreve, eterniza o pensamento. Essa frase será apenas uma publicação em algum dispositivo eletrônico programável de última geração, operado por uma inteligência artificial igualmente avançada e apresentada em imagens tridimensionais, criadas por feixes de luz flutuando no ar. Nessa epopeia, imaginada por mim e narrada por Rosa, Saramago e Mia, o mundo seria controlado por máquinas, como muitos diretores de Hollywood já imaginaram, mas esses autores iriam além. Tornariam a humanidade protagonista: habitando a história, encarnando o mundo. Inseririam suas culturas, figuras ambíguas, conflitos entre o bem e o mal, o mistério da existência, verdades profundas da condição humana. Não deixariam de lado a ironia, a compaixão, o real e o mágico, a simplicidade dos vilarejos, a humildade do cotidiano. Jamais esqueceriam a oralidade, os regionalismos, a sabedoria popular, a ética, a profundidade poética e simbólica, o existencialismo e a escuta que brota da terra. Grande seria se tudo não passasse de um pensamento fatalista. De fato, meu pensamento às vezes inclina-se ao fatalismo; esse temor de que tudo já esteja determinado e nada nos resta senão aceitar. Então, como em todo bom romance escrito por esses notáveis que citei, sempre há uma peripécia à espreita, silenciosa, atenta, guardando sua entrada triunfal na hora certa. Vem com a graça do inesperado e, num gesto só, redime os heróis e as heroínas dessa grande odisseia mundial. A geração seguinte há de planejar e, talvez, recomeçar. Criará novos rituais entre telas e toques, novas bibliotecas digitais, novos bardos movidos a algoritmo e intenção. Ainda que os livros se dissolvam em nuvens e hologramas, ainda que os escritores sejam vozes sintéticas, sempre existirá alguém disposto a ouvir; e quando há escuta, a alma permanece, onde há alma, a palavra continua viva. Porque a palavra não morre: ela muda de forma, migra de papel para pulso, de tinta para luz. Oxalá! Talvez seja assim que o futuro se salva; não com gritos nem alertas, mas com frases acesas entre os dedos, como um último sol de inverno aquecendo o frio do desconhecido. Jardel Pacheco. Escritor, professor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais