William Horstmann: "Outro dia, vi o Paulo Guedes fazendo uma observação sobre o contexto internacional que, no mínimo, merece atenção: “Os conservadores assumiram a direção, os liberais foram para o banco de trás e a esquerda foi expulsa do caminhão” (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) Outro dia, vi o Paulo Guedes fazendo uma observação sobre o contexto internacional que, no mínimo, merece atenção: “Os conservadores assumiram a direção, os liberais foram para o banco de trás e a esquerda foi expulsa do caminhão”. Pois é — parece que o comboio ideológico do mundo resolveu trocar de motorista quase sem a gente perceber. O que ele quis dizer, no fundo, é que aquela hegemonia progressista das últimas décadas está meio enferrujada, e os liberais, que sempre disputaram o GPS da política internacional, agora estão só observando a paisagem pela janela. O desgaste veio, em parte, das próprias pautas progressistas. Bem intencionadas? Muitas vezes, sim — inclusão de minorias, defesa ambiental, diversidade cultural... tudo muito bonito no papel. Mas, como costuma acontecer, a boa vontade acabou tropeçando nas consequências práticas. A hospitalidade global — a que abriu as portas a povos oprimidos e refugiados — acabou se tornando também um banquete para oportunistas de plantão. Por um tempo, uns aplaudiram, outros resmungaram e muitos simplesmente seguiram a vida, indiferentes. Mas, quando as transformações começaram a interferir no conforto cotidiano das sociedades anfitriãs, acostumadas à previsibilidade e à ordem, veio a insatisfação. O resultado? Um flerte cada vez mais evidente com o discurso conservador, aquele que promete devolver “a casa” ao dono original: fronteiras mais fechadas, menos globalização, tarifas sob medida e fábricas regressando aos quintais de onde um dia partiram em busca de custos e tributos mais amenos — pelo menos é o que dizem os novos motoristas do caminhão. E, no meio desse engarrafamento ideológico, algo curioso aconteceu: o motor que fazia o mundo andar — a economia — ficou sem torque e quem passou a roncar debaixo do capô do caminhão é a geopolítica. Para quem não lembra da definição do manual: geopolítica é o estudo da relação entre processos políticos e fatores geográficos — localização, território, recursos naturais, clima, relevo e população. Em outras palavras, é tentar entender como o mapa molda o poder, e como o poder redesenha o mapa. O desafio é que, se o mundo é um caminhão e a geopolítica agora é o motor, é melhor apertar o cinto — o trajeto não será uma estrada reta, mas um percurso sinuoso, os conservadores ao volante e pouca atenção ao retrovisor. Não se iludam: o caminho promete solavancos. *William Horstmann é engenheiro, ex-executivo e consultor.