(Fernando Frazão/Agência Brasil) O 20 de Novembro é mais do que uma data no calendário: é um marco de memória, dignidade e afirmação. Como escreveu Abdias Nascimento, “a história do povo negro é a história da própria construção do Brasil”. Celebrar a Consciência Negra é reconhecer essa verdade e colocar, na agenda pública, a urgência de construir um país onde todas as pessoas possam viver com igualdade de oportunidades. Santos carrega essa história em cada rua, em cada porto, em cada manifestação cultural que pulsa da orla aos morros, da Zona Noroeste à Área Continental. Aqui ecoam tanto as dores de um passado de escravização quanto a força de quem transformou resistência em legado. A cidade orgulha-se de nomes que marcaram a luta pela liberdade e pelos direitos civis; orgulha-se também da vitalidade das comunidades negras que, geração após geração, sustentam a vida econômica, cultural e comunitária do município. Mas a memória, como nos ensinou Lélia Gonzalez, “não é lugar de acomodação, é lugar de movimento.” E mover-se exige coragem para encarar um diagnóstico que permanece evidente: as desigualdades raciais seguem moldando o cotidiano de nossa sociedade. No Brasil e em Santos, a população negra compõe a maioria entre os desempregados, os trabalhadores informais, concentra as menores rendas, enfrenta maior dificuldade de acesso ao ensino superior e vive majoritariamente nos territórios com menor infraestrutura urbana. É também a que mais sofre com a violência — especialmente a juventude negra — evidenciando como raça continua determinando oportunidades, trajetórias e riscos. Esses dados não refletem fragilidades individuais, mas sim um sistema de exclusões acumuladas. São heranças de um país que aboliu a escravidão sem garantir inclusão digna; de décadas de políticas públicas que não alcançaram plenamente quem mais precisava; e de uma desigualdade que se atualiza continuamente, exigindo respostas firmes e permanentes. O marco legal brasileiro avança nesse sentido: o racismo é crime imprescritível e inafiançável; a injúria racial, hoje equiparada ao racismo, reafirma a centralidade da dignidade humana. Mas a lei, por si só, não enfrenta desigualdades estruturais. A transformação nasce da ação institucional, da gestão pública responsável, da escuta aos territórios e do compromisso contínuo com políticas de equidade. A Consciência Negra nos convoca, portanto, a honrar a memória e a assumir um compromisso público com o futuro. Que este 20 de Novembro nos inspire a seguir construindo uma Santos que reconhece todas as suas histórias, acolhe todas as suas vozes e garante oportunidades reais para todos. Uma cidade que lembra, que age e que transforma. *Alessandra Franco. Advogada, pedagoga, servidora pública, secretária de Administração da Câmara Municipal de Santos e mestranda em Políticas Públicas pela UFABC