Estão fora de moda? Não as tenho visto em jornais ou em conversas afiadas. Houve um tempo que eram moda. Atualmente, da seção Passatempos só restaram as palavras cruzadas e o dudoku. Qual o nome próprio masculino que contém todas as vogais e começa com ouro? Esse não é um jogo para ansiosos. São pequenos exercícios de armadilha de linguagem, em que o óbvio se esconde atrás da lógica torta. Não são só brincadeiras, também são exercícios de filosofia popular. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E ainda havia os logogrifos, um tipo de charada que, ao modificar letras de uma palavra, criava outras. “Tenho cinco letras. Inteiro, sirvo à mesa. Sem a primeira, viro um rato. Inteiro outra vez, se me empilhas, viro louça no armário. Quem sou eu? Um prato”. O princípio é sempre o mesmo, busca-se um desafio que caiba na mão e arranque um sorriso quando a resposta aparece. Lembro de minha primeira charada, coisa de vó passando o café de pé na cozinha: “O que é, o que é: quanto mais se tira, maior fica?”, perguntou ela, com aquele ar maroto de quem fazia graça para o netinho. Pensei, pensei, fingi que pensava. Estava mais interessado na resposta e em oferecer a ela minha graça da dúvida e em devolver o carinho. “Buraco”, disse ela. “Buraco? Buraco? Ah, é mesmo vó. Como a senhora tá sabida hein?!”. Fui o primeiro a tomar café. As charadas, os enigmas e os logogrifos tinham o condão de unir as pessoas. Era assim, há muitos anos, quando tínhamos mais tempo, e o tempo passava devagar, o suficiente para o percebêssemos. “Eu tenho cidades, mas não tenho casas; tenho florestas, mas não tenho árvores; tenho rios, mas não tenho água. O que sou? Um mapa”. Que fofo, diria a avó. O curioso é que as charadas sempre carregaram prestígio. No século 19 estavam em todos os jornais, lado a lado com notícias de política e reportagens do dia a dia. Senhores de cartola e damas de leque enviavam a solução da charada da semana por carta, esperando ver seus nomes impressos na edição seguinte. Era um jogo literário e, ao mesmo tempo, um palco social. Há quem diga que a vida é uma sucessão de charadas. Passamos os dias decifrando sinais: o silêncio de alguém que amamos, as entrelinhas de um e-mail, o humor do chefe antes da reunião. São enigmas que não cabem em versos nem em almanaques, mas que exigem a mesma paciência e o mesmo olhar desconfiado. Quanto àquela pergunta solta sobre o nome próprio masculino que começa com ouro e tem todas as vogais, eis a resposta: o meu. Soluções, por favor, enviar carta para a redação deste jornal.