(Joedson Alves/Agência Brasil) O Brasil, esse país de proibições seletivas e moralismo fiscal, resolveu deixar bilhões de reais evaporarem na fumaça da hipocrisia. A pesquisa da USP e do Instituto Ipsos mostra o óbvio ululante: ao proibir ou fingir que não vê os novos produtos de tabaco e nicotina, o Estado empurra o consumo para o submundo do contrabando — e com ele, sua arrecadação para o ralo. A falta de regulamentação dos novos produtos de tabaco e nicotina no Brasil — como os cigarros eletrônicos e os sachês de nicotina – tem consequências concretas: os governos estaduais e Federal deixam de arrecadar bilhões de reais em impostos, enquanto o mercado clandestino se fortalece. A clandestinidade virou política pública. No Rio de Janeiro, a perda beira R\$ 1,6 bilhão por ano. Na Bahia, quase R\$ 600 milhões. No Rio Grande do Sul, outros R\$ 550 milhões. É um desfile de incompetência tributária digno de nota. São Paulo perdeu quase R\$ 4 bilhões e Minas Gerais, cerca de R\$ 2,5 bilhões. Dinheiro que poderia financiar hospitais, escolas ou saneamento básico, mas que acaba financiando o crime organizado e o enriquecimento de atravessadores. O Estado, sempre faminto por impostos, parece ter perdido o apetite quando o banquete é servido fora do gabinete. A ironia é que o mesmo governo que tributa o pão, o livro e o combustível com voracidade canina se faz de cego diante de um mercado bilionário. A cada produto “proibido”, cria-se uma nova fonte de renda para o contrabando. A cada decreto moralista, uma derrota fiscal. É a velha arte brasileira de perder dinheiro enquanto posa de virtuosa. E enquanto os cofres públicos emagrecem, o discurso oficial engorda. Fala-se em saúde pública, mas o que há é desordem econômica e uma miopia ideológica. Regular não é liberar — é controlar, fiscalizar e arrecadar. Mas, no país da incoerência institucionalizada, prefere-se proibir o que já está sendo vendido em cada esquina. Resultado: o contribuinte paga a conta e o contrabandista brinda com champanhe. A cada R\$ 1 deixado de arrecadar com estes produtos, o Brasil gasta R\$ 5 com tratamento de saúde para pessoas que se intoxicaram ou ficaram doentes usando os mesmos produtos. Se o Brasil quiser parar de fumar a ilusão de que proibir resolve, precisa acender a luz da razão econômica. Porque, do jeito que vai, o país continua soprando fumaça — e queimando o próprio bolso. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo