(Reprodução) Ah, José Martins Fontes… Certamente, um dos corações mais generosos que já tocaram o chão de Santos. Ser bom, fazer o bem, espalhar palavras que curavam tanto quanto os remédios que prescrevia. Tudo isso era o médico e, sobretudo, poeta. Seu espírito ainda paira pela cidade, como brisa leve à beira-mar, pisando suavemente os mosaicos portugueses que ainda restam nas calçadas. Santos, a sua casa, o seu refúgio. Na Terra de Braz Cubas, as ondas sussurram histórias e os ventos embalam memórias, Zezinho encontrou o seu lugar. Entre consultas e receitas, os versos eram rabiscados às pressas no papel que deveria conter apenas diagnósticos. Mas como poderia ele se limitar a uma única forma de cura? “A alma precisa tanto de poesia quanto o corpo precisa de remédios”, imaginava o poeta. Ser bom! Que conceito singelo, e ao mesmo tempo tão vasto. A bondade não se faz de grandes gestos, mas de pequenas oblações cotidianas. O olhar acolhedor para o paciente aflito, a escuta atenta às dores que vão sempre além do físico, a palavra certa no instante necessário. Se algum legado deixou, o de ser bom não foi nenhum esforço, mas um estado natural para quem vê a vida com ingênua afeição. E as palavras… ah, as palavras! Elas sempre foram suas companheiras. Recolhia-se entre a pena e os papéis, deixava que o pensamento corresse livre, dançasse entre os versos, encontrasse repouso em metáforas inesperadas. Assim como a vida que, de contínuo, se escondeu nos detalhes, a poesia se revelou nas entrelinhas. A rua, o porto, o mercado… Cada canto de Santos falava em murmúrios em seus ouvidos, e ele respondia com versos. Seu terno olhar captava histórias escondidas, rostos marcados pelo tempo, gestos de afeto entre desconhecidos que se cruzavam sem saber que também eram poesia. O que é a cidade senão um livro aberto, repleto de poemas, cujas páginas são viradas com os passos dos que nelas caminham? Na medicina, Zezinho sempre acreditou que o toque humano curava tanto quanto o remédio. E, na poesia, acreditava no poder das palavras para cuidar a alma. Que estranho e maravilhoso ofício, esse que transita entre duas formas de cura! A caneta e o estetoscópio, aliados inseparáveis na jornada de Fontes. Hoje, talvez, alguém possa encontrar um desses rabiscos na parte de trás de uma receita antiga, esquecida em uma gaveta qualquer. E ao ler, quem sabe, sinta um pouco da ternura que um dia o médico e poeta carregou no peito. E, se um dia os seus versos se perderem no tempo, que permaneça ao menos a ideia de que a poesia pode estar em qualquer lugar: nos bilhetes deixados sobre a mesa, nos rabiscos do caderno escolar, na conversa entre amigos que ressoa como um soneto espontâneo. Quem vê beleza nas pequenas coisas já entendeu que ser bom e fazer poesia são, na essência, atos extremamente semelhantes. *Mestre em Educação, escritor, pesquisador, presidente da Contemporânea-Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras