(Pixabay) Batidas à porta. A vizinha atende. Agradeço o presente de Páscoa e entrego os nossos aos filhos. São três. O pequeno copia as palavras do tapete da entrada, “Seja bem-vindo”, usando lápis coloridos e o novo caderno. O do meio, que já ultrapassa a mãe, sorri, afetuoso e gentil. A genitora é médica. Trabalha no período noturno para acompanhar diariamente os afazeres dos rebentos e cumprir os seus: cozinhar, cuidar da casa, principalmente do clima harmonioso, evitando e apaziguando conflitos. Desta vez, ela anuncia com o rosto todo iluminado, vamos aprender música! Precisamos elevar a alma e buscar a paz do espírito... Eu, ao piano. O filho, na guitarra! Divago, olhando ao pé da vidraça, a primavera em cachos, buquês rechonchudos espalhando o rosado pelo apartamento. Amigos, a árvore está plantada num vaso, mas floresce em abundância graças aos cuidados: rega, adubo, poda correta e luz natural. Num canto, outro vaso enorme, apenas com terra, pois a jabuticabeira morreu, e apesar das tentativas para reanimá-la, o formigueiro tomou conta. Assim é: tudo que vive morre. Nós, os animais e as plantas. A vida efêmera tem a duração de um haicai. Basta um instante para se cumprir. Na minha varanda, a bela cruz-de-ferro, presente da querida poeta de haicai, vai se recuperando. Chegou num vaso pequeno, delicadeza pura em poucas folhas. Transplantada para um recipiente maior, com mais terra, à luz indireta na mesinha da sala, cresceu maravilhosamente, espalhando o verde e o desenho típico pelo ambiente. Ainda bem cedo, já me punha a admirá-la e fortalecida com essa dádiva, o dia transcorria... Certa manhã, a triste surpresa... As folhas amolecidas, provavelmente por excesso de água, pendiam dos frágeis caules. As hastes meladas apodreceram e não sustentaram a folhagem. Só restou um rizoma, tipo de raiz modificada, espessa e carnuda, de onde as folhas brotam diretamente. Vontade de chorar, mas resisti. Afinal, na velhice, a memória também enfraquece. Coloquei o vaso à meia-sombra e à temperatura amena. Reguei por baixo para não apodrecer a raiz e depois de algum tempo, despontaram quatro novas e belas folhas. Lembrei das santas mensagens do papa Francisco. Não somos eternos! O homem sábio reflete sobre isso todo dia, sem esquecer a disposição do espírito... E completou, citando São Thomas More: dai-me uma alma que não conheça o tédio nem os resmungos, suspiros e lamentos, e não permitais que eu me atormente demais com essa coisa incômoda chamada “eu”. Dai-me, Senhor, senso de humor! Amém. A paz e a alegria tomaram conta de mim. Vontade de cantar, porém sou desafinada... No entanto, isso é apenas um detalhe, nesta vida em que muitos não têm pão nem teto. A quinta sinfonia de Mahler fez-se viva, e dancei sussurrando a melodia. No bebedouro, beija-flores, sanhaços e cambacicas... Bendito senso de humor! *Membro das academias Santista de Letras e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios