(Reprodução/X) Tenho me perguntado se há resquícios de literatura na construção do atual pensamento macroeconômico e geopolítico chinês, nos contra-ataques de Xi Jinping na escalada da guerra de tarifas contra Donald Trump. Desde o começo do século 20, o país asiático tem apostado na tradução, sobretudo de escritores europeus, para entender e decifrar a realidade e a subjetividade que habitam o outro lado do mundo. E assim, os chineses também têm estudado o Ocidente, seus costumes e valores; investigam a história do crescimento do capitalismo e os problemas enfrentados pela sociedade capitalista; o surgimento e os hábitos da burguesia; os pontos fracos do provável inimigo. Na cátedra chinesa que analisa as fraquezas do Ocidente, um escritor francês detém o título de doutor honoris causa: Honoré de Balzac. Criador de A Comédia Humana, o maior espelho da realidade social da França do século 19, Balzac conquistou um status literário elevado e singular na China — muito acima do atribuído à maioria dos escritores estrangeiros. É certo que o tempo de Balzac ficou para trás, as revoluções industrial e tecnológica mudaram radicalmente as relações comerciais e a vida no planeta, porém, o mesmo não podemos afirmar das paixões, vaidades e dos desejos humanos. Balzac fez da França um modelo de civilização capitalista imperfeita e decadente. Daí a razão dele ser tão lido na China. Guan Meng, em sua pesquisa de mestrado O Fenômeno Balzaquiano na China (Le Phénomène Balzacien en Chine), defendida em 2014 na Universidade de Angers, no oeste da França, afirma que o governo chinês valoriza e sempre elogia Balzac por seu trabalho e experiência: “Todos os estudantes chineses são incentivados a ler os romances de Balzac pelo Ministério da Educação chinês”. Segundo Meng, “após o triunfo do Partido Comunista Chinês, isto é, a fundação da República Popular da China, o governo chinês colocou o marxismo em alta estima. Desse modo, Balzac, escritor francês recomendado por Marx e Engels, é parabenizado pelo governo chinês. Assim, como um escritor francês de esquerda que descreve bem os defeitos de uma sociedade capitalista, Balzac obtém lugar soberbo em nosso país socialista”. Será que o contraditório pensamento de Balzac também pode ajudar Xi Jinping nessa perigosa comédia tarifária? Sei que Xi Jinping já leu Balzac, porém, o todo poderoso chinês disse, numa entrevista, que sua obra literária preferida é Os Miseráveis, de Victor Hugo. Tudo certo na literatura. Hugo e Balzac eram amigos do peito. Já na economia… *Lucius de Mello. Doutor em Letras, autor da tese “A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana”, jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003