(FreePik) Décimo quarto andar... Meus olhos espiões redesenham a construção em processo: no ano passado, o barulho ensurdecedor das rochas perfuradas, até o terreno parecer um lago no jorro forte das águas. Mesmo sabendo que lagos são de água doce, me perguntava se nelas haveria sal do mar, tão próxima que está a edificação do estuário e da praia, que dá nome ao bairro - Ponta da Praia! Meu cunhado espanhol e empreiteiro considerava o melhor lugar para passear, namorar, morar... E construir. Assim, arrastou toda a família para este bairro. Nos primeiros anos, morei a algumas quadras da praia com o marido, a filha e o cão yorkshire. Depois, diante do mar, fui viajante eterna nas águas brilhantes de luar ou revoltas, quebrando-se nas rochas! Agora, mais distante, serpenteio o canal Sete para chegar ao Atlântico, águas salgadas dos meus antepassados imigrantes. De volta, continuo a (re)construir com o olhar, a arte operária que se desenha, dia a dia. Haja sol e calor, chuva e frio. Não importa, o formigueiro humano não para. Anos atrás, acredito, era maior o número de trabalhadores na construção de um prédio. E moravam ali, precariamente, improvisando um canto para esquentar a marmita e comer. Apenas um ou dois permaneciam na obra durante a noite. Os outros retornavam de madrugada. Aqui da janela, hoje, constato com satisfação, que uma casa menor da área não foi demolida. É a atual moradia dos trabalhadores. Aos domingos chegam as mulheres e os filhos. Emocionante a alegria do encontro. À noite, despedidas... E tudo recomeça. Tudo pensado, planejado, mãos que se entrelaçam entre os tapumes e as aberturas, surgindo as colunas que sustentarão a obra. A movimentação lembra um jogo de xadrez. O tabuleiro é a primeira laje. As peças lembram formigas... Registros fósseis indicam que as formigas surgiram por volta de 80 milhões de anos atrás. E estes operários? O ser humano começou a construir abrigos e casas há milhares de anos, remontando a pelo menos 500 mil anos atrás, segundo descobertas arqueológicas. Inicialmente, os homens utilizavam cavernas e outros abrigos naturais. Na transição de nômades para sedentários desenvolveram técnicas para construir suas próprias estruturas, cabanas de pedra e casas de barro. As formigas são consideradas um dos grupos de insetos mais antigos ainda existentes, tendo coexistido com os dinossauros e sobrevivido a eventos como a extinção em massa, que eliminou esses grandes répteis. Operários lembram o trabalho das formigas, mas são humanos e artífices da beleza. Pronta a obra, onde irão morar? *Regina Alonso . Escritora e membro das academias Santista de Letras ‘Casa de Martins Fontes’ e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios