(Luiz Fernando Menezes/ Arquivo AT) A Academia Brasileira de Letras (ABL) – entidade literária e cultural de 1897 que teve Machado de Assis entre seus fundadores – finalmente ganha um caráter nacional no que se refere à inclusão de todas as raças e gêneros que compõem o Brasil com a eleição da escritora Ana Maria Gonçalves. Dos 40 membros que compõem a sua estrutura de cadeiras, nesses 128 anos que serão completados no próximo domingo, havia e ainda há uma discrepância de ocupantes, mas já observamos uma mescla nas cores de seus representantes. Ana Maria Gonçalves entra para a história não só pela sua obra mais nova - Um Defeito de Cor -, mas por ser a primeira mulher negra eleita à ABL. De mulheres, ela é a sexta ocupante atual e a 13ª ao longo da existência da Academia, sendo a pioneira Rachel de Queiroz, em 1977. Em relação aos homens negros, hoje existem apenas dois representantes, Gilberto Gil e Domício Proença Filho, sendo que já passaram por lá outros, como o próprio Machado de Assis, José do Patrocínio e dom Silvério Gomes Pimenta. Em abril do ano passado, com a posse do escritor e indígena Aílton Krenak, também se fez um reconhecimento ao nosso mapa cultural, que é formado por brancos, negros e indígenas. Uma entidade como a Academia Brasileira de Letras, que deve ser composta pelos escritores de vários estilos e gêneros literários de todo o território nacional, não pode se pautar como um órgão fechado, com princípios racistas e cheio de preconceitos. Ana Maria Gonçalves, eleita com 30 votos, vai ocupar a cadeira 33. Segundo ela, será uma grande responsabilidade nessa representação da minha ancestralidade de mulher negra, mas que espero puxar outras escritoras de valor que o Brasil gera. Foi um dia histórico e, mesmo antes de ser aclamada como imortal, foi homenageada no último Carnaval pela escola de samba Portela por seus méritos. No gênero romance, em 2002, publicou Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim, que conta uma história de amor entre um casal. A obra Um Defeito de Cor, publicada em 2006, ganhou o prêmio Casa de Las Américas, em 2007. É um romance contemporâneo, mas que traz histórias de um passado de uma mulher africana escravizada no Brasil, narrando a sua vida através de uma carta a um filho, desde a sua infância na África até a velhice. Em um trecho, ela diz: “Escrevo porque preciso deixar algo para o menino, mesmo que ele nunca leia, mesmo que nunca me perdoe, mesmo que nunca me procure. Escrevo para que um dia ele saiba que teve uma mãe, que foi amado, desejado, e que sua ausência doeu mais do que qualquer ferida que eu tenha tido no corpo”. Escritora aclamada, que merece ser lida! Uma obra que deve fazer muitos resgates. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora