(Reprodução) José Bonifácio de Andrada e Silva transcendeu o título de Patriarca da Independência. Cientista iluminista, dedicou 36 anos à efervescência europeia para, então, regressar com a lucidez de um arquiteto visionário, munido de um projeto grandioso: erguer uma nova civilização em solo brasileiro. Seu desígnio era claro: erigir uma nação de concepção europeia, mas, na essência, intrinsecamente nacional. Para ele, a premissa era inegociável: o alicerce da jovem pátria jamais poderia repousar sobre a desigualdade social. O ilustre santista, desvendando as mazelas, propôs um plano vigoroso que unia a racionalidade das reformas ao estudo científico da diversidade territorial. Sua visão erguia-se sobre pilares inegociáveis. O primeiro era a liberdade: a extinção do tráfico negreiro e da escravatura, crimes que afrontavam a moralidade e o desenvolvimento econômico. A terra justa viria em seguida, com a distribuição de terras públicas para impulsionar o povoamento e a produção rural no interior. Sugeria, ainda, o deslocamento do centro decisório do País do Litoral para o Planalto Central, ideia concretizada com o surgimento de Brasília. O projeto de Bonifácio clamava pelo respeito à integração e fixação dos povos indígenas nos seus domínios originais, visando promover a coesão social. Para ele, o motor civilizatório residia na luz do conhecimento: uma educação universal e científica. A claridade dessas reformas, contudo, chocou-se contra a escuridão do latifúndio escravocrata. A oligarquia, obcecada pelo ganho imediato, silenciou o maior estadista da jovem nação. Essa rendição não foi um mero revés, mas o pecado original que talhou nossa estrutura social conservadora e que, teimosamente, ainda hoje, nos assombra. A falha da Constituinte de 1823 não se configurou como um acidente político; foi o selo de uma tragédia. Dela nasceu a Constituição de 1824, que petrificou a desigualdade estrutural que nos dilacera e acentua a cicatriz herdada. Esse revés histórico culminou no amargo exílio de Bonifácio em Bordeaux. O pensamento de José Bonifácio é um mapa de engenharia social atemporal, um chamado grave à vigilância política ativa de cada cidadão. Acima de tudo, um chamado aos governantes para que cultivem a retidão no agir e a proficiência na execução. O Brasil suplica por líderes, não por “falsos deuses” nem por meros reflexos de servilismo palaciano. A Pátria anseia por condutores com fibra de estadista, capazes de mirar para além da próxima votação. Em suma, uma perspectiva de longo curso tecida no benefício de todos e inerte ao triunfo fugaz das urnas. O patrimônio de Bonifácio é a bússola do amanhã, moldado em severidade e afeto. Um sussurro que perdura se faz ouvir: “Que os agentes públicos troquem o fulgor passageiro da peleja eleitoral pela sentença indelével da memória”. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado, mestre em Direito Ambiental, vice-presidente do Movimento Pró-Memória de José Bonifácio