Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Um dia você é jovem, cheio de planos e esperanças, e no outro está varrendo a casa como um sargento mal-humorado, gritando: “Brinquedo no chão vai pro lixo!” É nesse instante que você percebe: a juventude se despediu e o que sobrou foi a farda da vida adulta — que não é espetáculo, é faxina. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E como a vida virou comércio de ilusões, lanço aqui uma promoção imperdível: pague minhas contas, assuma meus problemas e, de brinde, leve o direito de falar da minha vida. É o verdadeiro mercado contemporâneo: miséria com bônus. Para os otimistas de plantão, aviso: parem de pensar como heróis. Aprendam com o único exemplo de perseverança desta nação — o boleto. O boleto não desiste, não falha, não perde prazo. O boleto é o verdadeiro coach financeiro: um profeta que nunca mente. E como se não bastasse, ainda tem o reencontro social: “Nossa, você sumiu!” Pena que me acharam. Eu estava quase conquistando a felicidade do anonimato. Mas não: a sociedade insiste em nos puxar de volta para o convívio, pois conviver não é fácil. Quem não me conhece acha que sou chato. Quem me conhece tem certeza. E quem convive, francamente, deveria receber adicional de insalubridade pago pelo SUS. Suportar gente é trabalho pesado, mas sem direito a aposentadoria especial. Na hora de ajudar, ninguém aparece. Mas basta uma decisão errada para brotar especialistas até do buraco da tomada. A humanidade é exímia em sumir na ação e brilhante em palpitar na tragédia alheia. Resta rir. Rir para não agredir. Mas há dias em que a gargalhada sai com os dentes cerrados e vontade de bater junto. Não me acusem de cruel. Eu não coloco defeito em ninguém. Deus colocou, eu apenas relato. É jornalismo de observação. Aliás, dizem que atraímos o que falamos. Vivo repetindo “ser fitness”. O resultado? Uma fábrica de frustrações, pois a balança continuou subindo. E o churrasco ficou garantido. De resto, já faz parte da minha rotina ignorar a existência de certos indivíduos. É o único hábito saudável que cultivo sem falhar. O mundo seria melhor se algumas pessoas fossem substituídas por ar-condicionados: refrescariam mais, incomodariam menos e, quando estragassem, ainda poderiam ser consertadas. E, se está precisando de dinheiro, fale comigo. Eu também não tenho, mas pelo menos a gente chora junto. A miséria compartilhada é quase amizade. Quando perguntam: “Você trabalha com o quê?” respondo com a sinceridade de um mártir: trabalho com vontade de voltar pra casa. Emprego fixo, horário integral, salário baixo. E chega o sábado. O povo “sabadais”, mas você não. Você tem filho pra cuidais, casa pra limpais, marido pra aturais. Quem mandou casais? A vida é medieval, só que sem castelo. No fim, a vida é matemática: se está fácil, está errado. E se sobrou dinheiro, é porque você esqueceu de pagar alguém. E digo mais: se quem fala mal de mim soubesse o que penso deles, falaria muito mais. A diferença é que eu rio. Eles, não.