(Alexsander Ferraz/AT) Como pesquisador e palestrante sobre cidades, sejam elas inteligentes, resilientes, criativas ou frágeis, pude circular por diferentes regiões do Brasil e dialogar com pesquisadores de outros continentes. Essas escutas, feitas em territórios muito distintos, conduzem sempre à mesma constatação: o clima deixou de ser pano de fundo. Ele passou a interferir diretamente na forma como vivemos, produzimos e organizamos as cidades. A base física e química desse processo é simples. A Terra recebe energia do Sol diariamente. Parte desse calor retorna ao espaço. O problema surge quando gases como o dióxido de carbono e o metano passam a reter energia em excesso. Eles sempre existiram. O que mudou? A quantidade e a velocidade com que se acumulam. Ao queimar combustíveis fósseis e remover grandes áreas de vegetação, alteramos esse equilíbrio. Mais gases significam mais retenção de calor. A física responde sem ideologia: a temperatura média sobe, os ciclos se desorganizam, os extremos se intensificam. Não é narrativa. É funcionamento básico da natureza. Surge então a pergunta inevitável: o que eu tenho a ver com isso? A resposta é desconfortável. Individualmente, pouco. Coletivamente, tudo. O aquecimento global não é falha moral nem culpa pessoal. É resultado de escolhas repetidas, normalizadas ao longo de décadas. Não nasce de um gesto isolado, mas de um modo de viver. E o que eu posso fazer? Convém abandonar ilusões. Ações individuais não resolvem o problema sozinhas. Economizar água ou reduzir desperdício ajuda, mas não salva o planeta. Essas atitudes cumprem outro papel: preservam a coerência. Evitam que o excesso seja tratado como neutro. Então vem o argumento mais confortável: isso não é problema dos governantes? Em grande parte, sim. Políticas públicas são decisivas. Mas governos não operam fora da sociedade. Eles respondem ao que é cobrado, tolerado ou ignorado. Quando o clima entra em colapso, não é apenas falha de gestão. É reflexo de prioridades coletivas mal definidas. No Brasil, os sinais são claros. Secas, enchentes, incêndios, calor extremo e falta de planejamento urbano já fazem parte do presente. Não é projeção futura. A Terra sempre mudou. O que muda agora é a velocidade e a causa. O clima não exige crença. Ele responde às condições impostas. A Terra não pede heroísmo. Pede lucidez. *Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, mestre em Direito Ambiental, pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes, assessor técnico e consultor regional Instituto Multiplicidades