(Freepik) A dor feminina no Brasil não é acidente, é o lamento ancestral urdido na matriz colonial. Sob o jugo da escravidão e do absolutismo, a sociedade teceu a violência, atando gênero e cor num nó de subordinação que ainda aperta. A semente nefasta germinou no Corpo de Leis de Filipe I, um arcabouço sombrio que se alongou no tempo até o alvorecer do Primeiro Código Civil brasileiro, em 1916. No Código Filipino, o vetusto Título 38 do Livro V trazia a “cláusula da desonra”, que insuflava o marido a ceifar a vida da esposa infiel sob o manto da “honra ferida”, chancelando o feminicídio em letra de lei. Sob essa ótica, o olhar colonizador via a anatomia feminina, e em especial a da mulher negra escravizada, como gleba sem dono, um bem à mercê de desejos e conveniências. Cimentou-se, assim, a crença perversa de que a força bruta seria a bússola para toda contenda, instituindo a violência como a mais radical negação da dignidade. Apesar do denso aparato legal e da voz das campanhas, a sombra colonial ainda habita o presente. Ao indivíduo masculino, a cultura oferece o indulto poético do erro, tecendo seus deslizes em lendas de liberdade. À mulher, contudo, um passo em falso reduz sua reputação a um castelo de vidro que se estilhaça ao menor juízo. Essa herança recai com maior peso sobre a mulher negra. Alvo prioritário da agressão, ela ostenta os indicadores mais sombrios, reflexo de um duplo fardo de raça e gênero. Nos lares, sua dignidade é sufocada pelo fardo invisível do zelo e das incumbências domésticas. Este labor silente, que evoca a sina ancestral das escravizadas, furta-lhe o tempo para a florescência plena do ser. A dignidade feminina é um campo de batalha de custo social incalculável, que exige a demolição urgente dos estigmas. A luta é o resgate poético da essência, o anseio por um futuro onde o nome, o corpo e o trajeto de cada mulher sejam sagrados e intocáveis. Para desfazer a nefasta costura entre a herança colonial e a dor presente, que o combate ao feminicídio se erga sistêmico e implacável. Que semeemos a Igualdade na infância, desmantelando a fundação patriarcal; que afiemos a Lâmina da Lei, garantindo punição célere e exemplar; e que reforcemos o Amparo Social, reescrevendo a arquitetura da Nação pela equidade. Romper as correntes do passado é o nosso imperativo de justiça. É o brado ufanista que forjará um futuro onde a vida da mulher será, enfim, sagrada e reverenciada. *Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental