Papiro atribuído a Dedi, mágico que teria vivido na corte do faraó Quéops há quase 5 mil anos (Divulgação) Antes da nuvem, houve o barro. Antes da luz, o fogo. Antes do holograma, a mão bruta e trêmula de alguém riscando sinais numa parede de caverna, civilizações desenhando cuneiforme e hieróglifos numa tábua de argila ou papiro. Assim nasceu a escrita; não como ornamento, mas como necessidade de contar, lembrar e resistir ao esquecimento. A primeira escrita não buscava beleza e sim permanência. Estiletes, tábuas de argila e papiros, não imaginavam que essas marcas seriam decifradas séculos depois por mãos inquietas, encontrando o embrião de algo maior: a vitória simbólica contra a morte do tempo. Acredito que a escrita, em todas as suas modalidades, seja o mais humano dos atos: o de dar forma à memória. Séculos se passaram... a escrita se fez pena, se fez tipografia, se fez circuito. Tornou-se etérea, deixando rastros de papel para pousar em telas e cabos de fibra óptica. Hoje, paira sobre nós nas nuvens digitais, fragmentada em algoritmos, espelhada em telas a brilhar mais que o sol, descortinando as sombras das cavernas. Uma das maiores potências silenciosas da escrita é a habilidade de conter a barbárie. A escrita cria pontes onde antes havia abismos. Muitas guerras nasceram e ainda nascem da ignorância, do não conhecimento do outro, da supressão de narrativas, da destruição da memória. A palavra, quando escrita, impede que a verdade seja apagada e evita a continuidade dos erros cometidos no escuro da desinformação. A boa escrita humaniza: aproxima inimigos ao revelar suas dores comuns, desfaz mitos que alimentam o ódio, documenta as tragédias para não se tornarem rotina. Ao contrário da espada que corta, a palavra escrita reconecta. Ao contrário da bomba que cala, o texto grita por diálogo e mesmo quando não evita o conflito, a escrita é quem costura a paz depois da destruição. É nos acordos assinados, nas constituições reescritas, nas cartas enviadas do front, nos diários escondidos sob o travesseiro, a esperança se mantém. Quem escreve resiste. E quem lê compreende que há sempre uma escolha antes de cada guerra. O futuro, como imaginei em devaneio fatalista, pode até apagar os escritores de carne e os livros de tinta; jamais eliminará o desejo de narrar. Porque mesmo quando falarmos com máquinas, ainda será um humano por trás da pergunta: “e depois da última escrita, o que vem?” Não sou pessimista, mas proponho uma reflexão: perguntem aos jovens de até vinte e cinco anos quem são seus escritores, músicos, atores e ídolos preferidos, excluindo as influências herdadas dos pais, avós e bisavós. A primeira escrita nos permitiu fundar cidades. Talvez a última nos ajude a preservar as almas e no intervalo entre a primeira e a última, habita tudo aquilo que chamamos de história. Ah! Ainda guardo em mim, entre tantos outros, estórias de Guimarães Rosa, José Saramago e Mia Couto.... *Jardel Pacheco é professor, escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais.