(Reprodução/X) Não ousaria dizer quanto tempo faz; entregaria minha idade, tão jovem que sou. A sala de aula era do curso pré-vestibular. Daquelas com 200 alunos e professor usando microfone; uma novidade pra quem vinha do ginásio em uma escola de bairro. Eram tempos apertados; falasse mais e a polícia política caía no seu pé. A resistência cultural sobrevivia pelas bordas, mostrando-se viva na voz de intelectuais e artistas. Enquanto os estudantes ensaiavam brados tímidos contra a ditadura, as televisões queimavam em brasa com a novela Gabriela, Cravo e Canela, adaptação de Walter Durst para o romance de Jorge Amado. Às dez da noite, a lindíssima Sonia Braga subia nos telhados de Ilhéus – quem esquece daquela cena? - e, nas rádios, a Modinha para Gabriela, composição de Dorival Caymmi, magistralmente interpretada por Gal Costa, tocava sem descanso. Nos intervalos de aula, nossa roda se formava em torno do Caderno B, do JB - Jornal do Brasil - especialmente nas edições de sextas-feiras, dias de críticas de cinema, teatro e estreias culturais. Foi nesse grupo que conheci Solange: “Minha irmã é cantora. Lançou um LP este ano chamado A Voz do Samba”, disse, com simplicidade. “ Você não é maranhense?”, perguntei na minha ignorância juvenil e preconceituosa, como se, por ser maranhense, não pudesse gravar samba. Então Solange me contou sobre o pai João Carlos, maestro da Banda da Polícia Militar; a mãe dona Maria José; e nove filhos, todos criados entre instrumentos de sopro, como clarinete, saxofone e trompete, desde as primeiras letras escolares. A irmã mais velha saíra de São Luiz rumo a Belém, depois, ao Rio de Janeiro, onde encontrou o mundo do samba no final da década de 1960. Com sua voz, grave, ressonante, cheia de corpo, foi nessa época que ganhou o apelido de Marrom e gravou o primeiro LP em 1975. Dali em diante, aproximou-se rapidamente de Nelson Sargento, Mestre Delegado, Cartola, Dona Neuma e Jair do Cavaquinho. Tornou-se a “madrinha” da Estação Primeira e décadas depois estaria no carro de destaque enquanto a Mangueira a homenageava com o enredo A Negra Voz do Meu Coração, em 2024; e, ali, ao lado dela, estava Solange, minha colega de pré-vestibular. Boas décadas se passaram até me casar com sua homóloga e, neste de fim de semana, irmos juntos assistir ao show dessa que é uma das grandes cantoras brasileiras, Alcione. *Marcio Aurelio Soares. Médico