(Gerada por IA) Falamos, ouvimos, escrevemos, lemos. Vivemos rodeados de palavras e, muitas vezes, esquecemos que elas, essas ferramentas tão presentes em nossa vida cotidiana, carregam muito mais do que aquilo que dizem. Há nelas um outro lado, uma dimensão escondida, feita de silêncios, ambiguidades e sentidos que escapam ao controle de quem fala e de quem ouve. Mesmo organizadas em uma sequência lógica, as palavras não são instrumentos neutros, que obedecem fielmente ao comando do autor. Elas têm vida própria, memória. Tanto revelam quanto escondem, tanto conectam quanto separam. As palavras deixam também vestígios daquilo que não está presente, daquilo que não se diz. E, por vezes, o que não se diz fala mais alto do que aquilo que é dito. É esse “outro lado” o mais difícil de ouvir, pois exige de nós uma escuta atenta, aberta ao invisível. Como nos lembra o filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin, as palavras nunca são neutras, nem isoladas. Elas estão atravessadas por ecos de outras vozes, por memórias sociais, por histórias de uso. Quando as proferimos, carregamos junto toda uma rede de sentidos possíveis, que podem se atualizar de modos inesperados. Se formos a Roland Barthes, veremos também que o “outro lado das palavras” se manifesta no espaço que se abre após o que ele chamou de “morte do autor”. Em seu célebre ensaio de 1968, Barthes afirma que o texto, uma vez produzido, desvincula-se de seu criador e passa a existir em um espaço múltiplo, onde diversos escritos se encontram e se contestam. Um texto, portanto, não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único. Jacque Derrida, por sua vez, radicaliza na busca pelo “outro lado das palavras” ao propor a teoria da desconstrução. Não no sentido de destruir o texto, mas revelar as tensões e contradições que o habitam internamente. Na perspectiva derridiana, todo o discurso que se pretende unívoco e absoluto contém, em seu próprio interior, elementos que o desestabilizam. O “outro lado das palavras” seria justamente esse movimento incessante e incontrolável de significação que excede qualquer tentativa de fixação definitiva do sentido. Em um mundo cada vez mais marcado por polarizações discursivas e pela busca de verdades absolutas, talvez seja crucial recuperar essa dimensão de alteridade constitutiva da linguagem. Reconhecer “o outro lado das palavras” significa reconhecer que nossos discursos nunca nos pertencem inteiramente, que estamos sempre em diálogo com outros – presentes, passados e futuros – e que o sentido nunca se fecha em uma totalidade definitiva. A palavra, assim compreendida, deixa de ser um espaço de apropriação e dominação para se tornar um espaço de encontro e transformação. *Taís Curi. Jornalista e escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS)