(Divulgação) O asfalto da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, que liga Peruíbe a São Vicente, raramente é gentil. Para um professor da rede estadual de São Paulo, porém, ele parece esticar a cada quilômetro. Naquele dia, eu não era apenas uma motorista; era uma profissional em busca do direito básico de exercer a minha vocação. Fui à atribuição de aulas com o coração cheio de planos e as mãos prontas para o giz. O que encontrei foi o reflexo de um sistema desenhado para nos moer. Em tempos de “Educação 5.0” e telas reluzentes impostas pelo governo paulista, a realidade de quem pisa no chão da escola ainda é a da humilhação burocrática. Naquela sala, não vi apenas papéis; vi o desespero. Vi professores sentarem e chorarem diante da impossibilidade de garantir o sustento através da sua profissão. Não estou sozinha nessa estrada; somos uma multidão de vozes silenciadas por planilhas. Saí de casa, deixei a minha cidade e gastei o que não sobra no orçamento. Ao chegar, o balde de água fria: não havia aulas. Mas o pior não é o “não”; é o medo. O sistema nos acossa com uma espada sobre a cabeça: se não atribuirmos aulas em 30 dias, a punição é o exílio. São três anos impedidos de trabalhar, como se a falta de vagas fosse uma escolha nossa, e não uma falha de gestão da Secretaria da Educação de São Paulo. Ao longo de 15 anos de magistério, aprendi que educar exige equilíbrio entre normas e humanidade. No ano passado, a minha oportunidade no Ensino Médio surgiu após uma longa espera, preenchendo a lacuna deixada por uma colega que precisou priorizar sua saúde. É sensível perceber que, muitas vezes, o espaço para um professor se abre apenas quando outro precisa de cuidado. Essa jamais deveria ser a lógica do ensino. O adoecimento não termina na atribuição; ele atravessa o cotidiano. A sociedade consome índices e comerciais coloridos na TV, mas não vê rostos. Não vê a professora que retorna pela estrada, em silêncio, calculando o combustível, o tempo e o próprio fôlego. Diante disso, escolhi não endurecer. Mudei a estratégia: tornei as aulas mais próximas, lúdicas e humanas. Ironicamente, o reconhecimento que recebo de alunos e gestores é ignorado pelo sistema oficial. Mesmo tendo alcançado a nota máxima (40 pontos) na videoaula da Vunesp e conquistado a 54ª posição na classificação geral do Estado, a minha avaliação final é prejudicada. Sou julgada por uma métrica que ignora a minha excelência técnica para punir uma ausência forçada no primeiro semestre. Antes do fim do ano, ouvi de um aluno: “Agora eu entendo a importância de aprender História e política, professora. Obrigado”. É por momentos assim que seguimos. Sei a professora que sou, independentemente de índices desenhados para nos invisibilizar. Seguimos na estrada porque desistir não é opção. Mas permanecer sob o descaso também não deveria ser. *Ana Néri Bispo. Professora da rede estadual de São Paulo