(Imagem ilustrativa/Pixabay) Vivemos tempos em que as redes sociais ganharam não apenas a função de comunicar e entreter, mas também a de julgar. Em segundos, uma decisão tomada por uma autoridade policial ou judiciária pode ser transformada em manchete, dissociada de seu contexto e reinterpretada à luz das paixões do momento. Essa nova realidade está impondo desafios graves ao funcionamento do sistema de Justiça, que passa a atuar, muitas vezes, sob o temor do linchamento digital. A espetacularização da Justiça não é fenômeno novo, os tribunais sempre foram palcos de interesse popular, mas o que se vê hoje é uma nova camada de pressão: o receio constante de que qualquer decisão legalmente fundamentada seja reprovada pela opinião pública digital. A consequência é perigosa: o afastamento da lei. Tomemos como exemplo o delegado que, diante de um flagrante, em que pese o respaldo legal para arbitrar fiança, opta por manter o suspeito preso, mesmo nos casos em que a lei permitiria conduta adversa. Não por convicção jurídica, mas por receio de virar alvo de comentários e acusações na internet. O mesmo ocorre com juízes que, diante de um pedido de liberdade provisória ou revogação de prisão preventiva, hesitam em aplicar a norma com base nos autos, temendo que a decisão seja mal interpretada fora do processo, especialmente no tribunal virtual. Essa distorção compromete não só a independência funcional das autoridades, mas também a própria lógica da Justiça. Decisões passam a ser tomadas não com base na Constituição e na lei, mas com base em “tendências” e “repercussões”, como se o Direito fosse um reality show em busca de aprovação pública. É fundamental compreender que Justiça não é espetáculo. A atuação de policiais, promotores, juízes e defensores exige discrição, técnica e coragem. Não se trata de agir em segredo, mas sim com responsabilidade. A transparência é indispensável, mas não pode ser confundida com a submissão à plateia digital. A democracia pressupõe instituições fortes e autônomas, e isso inclui a confiança de que as decisões judiciais serão tomadas com base no devido processo legal, e não em curtidas ou compartilhamentos. O medo de ser exposto nas redes não pode se sobrepor ao dever de aplicar a lei com imparcialidade. O papel da imprensa e da sociedade, nesse contexto, é promover o debate responsável, contextualizando decisões, buscando entender seus fundamentos e, principalmente, reconhecendo que da Justiça se exige serenidade e não likes. *Advogado especialista em redes sociais