(Reprodução/Pixabay) Pelos caminhos da vida, a cada passo que dou vou percebendo o peso das certezas que a existência me atribui. A primeira delas, inevitável como o anoitecer de um dia radiante, é a morte. Ela me analisa a certa distância, paciente, sem pressa, aguardando a sua vez de entrar em cena. A segunda situação, esmiuçadora e burocrática, multiplica-se e chega pontualmente todos os anos, trazendo consigo papéis, números e cálculos: são os impostos. O tempo avança sem que eu possa freá-lo. Vejo o mundo girando, os dias encurtando, os rostos envelhecendo. A morte é um murmúrio inflexível, uma lembrança da finitude que torna tudo absurdamente precioso. Se não fosse por ela, talvez deixasse de notar os detalhes, como a luz do sol filtrada pelas folhas, o cheiro da chuva a cair no piso quente, o riso súbito de uma criança. A morte me instrui a respeito da urgência da vida, do valor do instante para sobreviver a cada momento, seja ele bom ou nem tanto. Os impostos não são tão perspicazes como a morte. Eles vêm sem lirismo, sem mistério, sem metáfora. Possuem a aparência exata das cifras e de diferentes regras, os custos de viver em sociedade, a condição imposta para que possamos transitar por ruas pavimentadas e o acender da luz quando a noite chega. Por vezes me questiono: para onde vão esses tributos? Para quais bolsos escorrem as contribuições que, em hipótese, deveriam retornar ao coletivo? Para nós, pobres mortais, fica explícito: “pague ou enfrente as consequências”. Se os impostos fossem nossos colegas, seriam aqueles sujeitos insistentes, que sempre aparecem quando menos os esperamos. Somos cidadãos de boa índole, responsáveis; como negar tais pedidos? Contribuímos, então, para a construção de pontes que nunca atravessamos, rodovias que terminam em lugar nenhum, próprios públicos nos quais ninguém poderá entrar. Levando-se em consideração que a morte é inevitável, os impostos pelo menos deveriam ser justos. Mas são como aparições disformes, ajustando-se aos interesses daqueles que os manipulam. São as engrenagens que moem os que têm pouco, enquanto os que mais poderiam colaborar encontram frestas por onde se esquivam, mas deveriam, ao menos, ser como a morte, imparciais, sem distinção de classe ou de privilégios. Aqui, pensativo, vou seguindo, carregando essas certezas como bagagens intransferíveis. Entre a fragilidade da vida e o peso das taxas, procuro a lógica nos pequenos instantes que me são dados, sabendo que, no fim, tudo o que posso fazer é viver densamente, antes que a primeira certeza se cumpra, ficando sempre a questionar a veracidade da segunda. Afinal, viver é um ato de obstinação contra o tempo, contra as improbabilidades e as injustiças que nos cercam. * Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras