(Pixabay) Olho em volta e noto um fenômeno curioso: amigos e conhecidos discutindo a tal da anistia. Alguns defendem seus políticos de estimação com unhas e dentes: “Os meus foram anistiados porque mereciam! Estavam defendendo a democracia!” Outros retrucam: “São os meus é que não fizeram nada! Tentativa de golpe é uma invenção!” Diferentes? Até são. Mas, no fundo, há um detalhe em comum: em ambos casos estão defendendo criminosos. O jogo é simples: se o bandido é “do meu time”, ele não é bandido — é vítima, mártir ou até herói. Basta que conte histórias que agradem. Alguns chegam a perguntar: “Mas existem provas contra ele?”, ao que se segue o velho repertório: relativização, tecnicidade jurídica e malabarismo retórico. Ora, se há provas aceitas em várias instâncias, confissões de envolvidos e um mar de documentos, fica difícil acreditar na inocência de quem quer que seja. Mas, mesmo assim, a mágica acontece: o ladrão vira santo, e quem aponta o crime vira inimigo da democracia. E aqui vai a comparação que dói: aquele que rouba para matar a fome é, sim, menos criminoso do que o de colarinho branco que desvia bilhões. O primeiro é empurrado pela necessidade, o segundo pela ganância. E ainda assim, paradoxalmente, é o ladrão engravatado que costuma ter advogados caros e até “pessoas de bem” dispostas a defendê-lo. Malfeitor é malfeitor. Com ou sem ideologia, com ou sem terno Armani. Quando a sociedade passa a aceitar essas figuras com serenidade — como quem aceita o barulho do trânsito ou se acostuma com o cheiro de fritura na roupa depois do boteco — é hora de ligar o farol vermelho. Anistia, por definição, é para crimes políticos. Não para desvios bilionários, conluios, esquemas de corrupção ou conspirações contra adversários. Esses são crimes comuns. E criminosos comuns precisam ser julgados e punidos — de direita, de esquerda ou de centro, sem exceção. E as manifestações? Importantes, legítimas, necessárias. Mas não podem ser sequestradas por ideologias para justificar malfeitos. Os protestos contra abusos do sistema, podem ser clamores populares justos. Transformá-los em palanque para defender corruptos é como organizar uma passeata ecológica distribuindo cigarros. No fim das contas, defender bandido “do bem” é tão perigoso quanto normalizar o crime. Porque, quando “pessoas de bem” transformam crime em virtude, não é só a democracia que sai perdendo. É a nossa própria noção de decência. *Engenheiro, ex-executivo e consultor