Num evento de literatura, uma mesa redonda de escritores. De um lado, uma expositora que divulgou suas publicações, informando à plateia que sua predileção era escrever contos, revelando diversas estórias nas quais seus personagens até poderiam sair do papel como pessoas de carne e osso, mas seria surreal que algo desse tipo sucedesse. Todos eram frutos de sua imaginação. As figuras concebidas em suas criações brotavam e eram conduzidas aos seus textos, dialogando uns com os outros com personalidades próprias, típicas do talento de uma pessoa que decidiu fazer da literatura a sua maneira de chegar aos leitores o que lhe ocorria na inventividade. Num determinado momento da exposição, a escritora revelou que passava a amar ou a odiar os seres de sua ficção e, num determinado conto, até “matou” um deles, “sem qualquer remorso”, confessou. Todos nós rimos e ela continuou revelando que fora preciso, para que o relato pudesse ter um final mais feliz. No lado oposto estava um casal, marido e mulher. Disseram que resolveram, a partir de uma pesquisa de alguns anos, trazer para o conhecimento de seus leitores um personagem real, pouquíssimo conhecido, mas que dava nome a uma importante avenida da cidade. Depois de muito tempo de buscas incessantes e garimpagens por livros, documentos, relatos de pessoas mais antigas, conseguiram encontrar alguns descendentes de sua personagem conhecida como uma via pública, mas que ninguém sabia, de fato, quem era. Concluíram que seria muito importante para a história se a figura tão mencionada, “até com certa intimidade”, segundo eles, pudesse ser revelada para os moradores da cidade, nas escolas e para todos os que mencionavam o seu nome, mas sem saberem, de fato, de quem se tratava. Os dois publicaram um livro e perceberam que outras informações poderiam gerar a continuação da história dessa tão importante, mas tão pouco conhecida figura quase pública. Ouvindo tudo aquilo, resolvi perguntar aos escritores algo que me surgiu como uma curiosidade de um também manipulador da escrita. Um tanto receoso, inquiri os escribas: “Vocês estão aqui nesta tarde tão agradável e fiquei curioso para saber, após ouvir atentamente o que nos revelaram em suas exposições, como os escritores podem nos dizer, ao criar narrativas tendo personagens vindos de suas imaginações e, ao mesmo tempo, outras personalidades que viveram como pessoas reais e, uma vez falecidos e esquecidos, mereceram ser revelados, pois são importantes demais para continuarem a viver na obscuridade. Como estabelecer essa quase divergência?” Os três me olharam, sérios, riram e confessaram que não tinham resposta convincente. Um deles, porém, perguntou sorridente: “Você também, como escritor, saberia nos dar a resposta à sua pergunta?” Após um instante de silêncio, todos nós rimos e a indagação, logicamente, continuou sem resposta. Diante disso, como ficamos nós, “pobres escritores”? *Maurilio Tadeu de Campos. Professor, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras