(Matheus Tagé/AT) Domingo, fim de tarde. Caminhada no calçadão da praia. O sol diminui no céu. Na areia, o vaivém nas barracas: desaparecem os resquícios do dia quente de verão. Logo desaparecem as próprias barracas, enroladas em si como o universo antes de explodir-se. Luciana, minha esposa, vira-se para mim e diz: “Sonhei que estávamos em um helicóptero e você pilotava”. Logo eu, que nunca andei de helicóptero e mal piloto a vida. Mas fiquei curioso, quis saber mais, perguntei onde estávamos, o que fazíamos, aonde íamos. Ela não conseguiu responder. A memória dos sonhos é assim: às vezes escapa pelas frestas da mente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas a imaginação resolveu repor o que faltou de lembrança à minha esposa. Então, logo o helicóptero subiu e sobrevoou o momento em que Leonardo di Caprio e Kate Winslet afastavam-se em um bote, ao som melancólico do último violinista no convés. Após manobra arrojada para a direita, vimos um cabeludo grisalho, de túnica, com um cajado no ar, ordenando ao mar que se abrisse, sendo observado por uma multidão impaciente. Desviamos e passamos em voo rasante pelas frotas de Erik, O Vermelho, a caminho do Canadá, quando o helicóptero foi envolvido em uma turbulência que quase nos faz perder o momento em que a maçã caiu da árvore e inaugurou a gravidade, ou que Gregor Samsa despertou sentindo-se levemente indisposto ao ver o fantasma de Braz Cubas. Seguimos para o leste. Sobrevoamos Pisa bem na hora em que Hércules, cansado ao terminar o décimo segundo trabalho, apoiou-se na torre. Fomos mais ainda ao leste, vimos a muralha alongando-se até perder de vista na África no momento em que Simba era coroado, a América virava do avesso com três caravelas fundeadas na costa cubana, e o Brasil fincava porto seguro em Brasília inspirada em Aketaton. Conduzi o helicóptero às nuvens mais altas, ao ar rarefeito. Traçamos um longo arco pelo horizonte da imaginação, pousamos ao lado da Apollo 11 e até acenamos a um disco voador que, displicente, balançava no espaço como um barquinho de plástico na banheira. Minha esposa perguntou do que eu achava graça. Nem tinha percebido, mas lá estavam meus dentes, rindo. Respondi: “Das bobagens que a gente pensa”. Chamei a atenção de Luciana para o pôr do sol. Por trás da Ilha Porchat, o céu de um fulgor laranja assentava-se sobre nuvens escuras, cercado por franjas de estrelas cobrindo o mundo com a noite. O céu, enfim, tornou-se silêncio, e outros sonhos logo viriam embalar a imaginação e suas preciosas bobagens — pérolas de eternidade, que a cada instante se esvaem por nossas mãos.