(FreePik) Germano acordou decidido: vamos viajar. Ao lado na cama, Jandira está de olhos abertos fixos no teto, mas ainda dorme seu sono particular. Germano nada diz sobre a decisão tão abrupta quanto os sonhos, que vêm e vão a cada noite. Levanta-se, dá a volta na cama, aproxima-se da mulher. Ao beijar-lhe a testa, cerra os olhos, como se concentrasse a alma na ponta dos lábios. Jandira não reage. Ele se afasta, vai à cozinha. O que seria hoje? Banana com aveia ou purê de maçã? Abre a geladeira, há uma dúzia de bananas já enegrecidas, quase estragadas. Precisa usar as bananas. Estende o braço para pegá-las, mas lembra-se: Jandira prefere o purê. Para onde vamos viajar? Germano se pergunta enquanto na panela a maçã começa a fundir-se ao açúcar em borbulhas douradas. Ela sempre falava de Paris, queria um dia ir a Paris, o Louvre, Notre Dame, Museu Picasso, a torre Eiffel; as celebridades sepultadas no Père-Lachaise; os bulevares, os cafés, as pontes do Sena. Sem nunca ter pisado na França, ela conhecia Paris melhor do que muita gente com estampa em passaporte. Sorri, sem parar os movimentos circulares com a colher: o purê de maçã quase no ponto, é hora de acrescentar o cravo e a canela. Pronto, Paris: pode ser. Germano tira a panela do fogo, passa o purê para uma tigela ornada por flores azuis. Mas Paris nesta época é um pouco sombria, muita chuva e frio. É o que dizem, pelo menos. Ele leva o prato ao quarto. Deixa atrás de si um rastro de fumaça adocidada. Coloca a tigela na mesa de cabeceira, ergue a mulher, arruma os travesseiros, senta-se na cama ao lado dela e acerta-lhe o guardanapo no pescoço. Toca-lhe o rosto com as pontas dos dedos, uma carícia sutil, como se buscasse em si uma memória dela que talvez nem exista mais. “Decidi que nós vamos viajar”, diz, enquanto assopra o purê fumegante. Jandira vira o rosto na direção de Germano e pela primeira vez o mira nos olhos com vida. “Gostou da ideia?”, ele se entusiasma. Ela sorri: “Ricardo?”. O nome do filho que nunca tiveram. “Sim, sou o Ricardo”. Jandira escancara a boca, ele oferece uma colherada do purê. “Está como você gosta?”. Ela balança a cabeça: sim. “Ótimo”, sorri. “E nós vamos viajar. Pensei em Paris”. “Paris?”. “Sim, Paris”. “Paris é muito salgado”. Germano fecha os olhos por um segundo. Uma lágrima? Concentra-se nela: os cantos da boca amarelados de purê. “Vamos esquecer Paris. Quem sabe o Egito? As pirâmides. Lembra que conversávamos tanto sobre elas? Bom, nem precisa ser uma viagem assim tão cara, mais difícil. Algo por aqui mesmo. Cidades históricas? Cataratas?”. Os olhinhos brilhantes, Jandira interrompe Germano. “Você é bonzinho. Quem é você?”. Cinquenta e dois anos depois de se unirem, só naquele instante Germano soube de fato quem era. Entendeu também que os roteiros do mundo seriam impossíveis, quando as geografias já não constam mais nos mapas. Mas não importa: os mapas são apenas contornos, nunca revelam tudo o que se é ou o que se tem. Partir ou voltar em nada depende deles. Germano coloca a tigela sobre a mesa de cabeceira e pega a mão dela entre as suas, num gesto terno de proteção. Em cada pedacinho de si, ele sabe: seguirá viagem sendo o guia de Jandira, pois ninguém sabe onde e como há de se chegar ao destino.