(Gerada por IA) Reginaldo está atrasado para o trabalho. Logo hoje, dia de reunião da produtividade na firma, espécie de inquisição corporativa disfarçada de incentivo. Reginaldo passeia as mãos dentro do guarda-roupa, procura a melhor a calça, a melhor camisa. Escolhe um jeans, deixa de lado. Pega uma camisa polo pendurada no cabide, também a rejeita. Não tem roupa sobrando, mas o nervosismo faz tudo parecer inapropriado. Decide enfim por uma camisa social sem procedência e reabilita a calça jeans surrada que havia desprezado na cama. Veste-se, vai ao banheiro pentear o cabelo. Abre o armário, pega o pente de osso que herdou do pai. Quando fecha a porta e se vê no espelho, a surpresa: cadê os cabelos grisalhos? As rugas ao redor dos olhos? As manchas na pele dos tantos sóis carregados nas costas? Vê no espelho o seu próprio rosto, mas o de 40 anos antes. É a cara de quando tinha 13 anos. Até o olhar, carente de passado, brilha invenções de futuro. O sorriso leve no espelho contradiz o espanto de Reginaldo. Como se o que sentisse agora pouco importasse à sua imagem de menino. Observa-se, a pele imaculada; ergue o braço, passa a mão no rosto, é macio; repara na mão: ao ser refletida, também está com 13 anos. Talvez seja atributo do espelho, talvez o rosto tenha derramado na mão um pouco de sua juventude reconquistada. Seja como for, vê-se no tempo em que virtude e pecado andavam de mãos dadas, como siameses que jamais poderão ser separados, por mais que se idolatre um e repudie o outro. O espanto acalma-se. O rosto de 13 anos é de repente a alma de 13 anos. Queria jogar futebol. Na rua onde os carros eram eventos raros, a bola rolava irregular no asfalto rugoso, em que chinelos demarcavam as metas, nos dois extremos das esquinas. Gritos de gol ou de dor, de dedões sangrando, rasgados nas pedrinhas. Havia a pausa do lanche, a groselha com limão derretendo-se no copo de tão gelada, o sanduíche de mortadela, um bolo ainda quentinho, saído dourado do forno. O futebol recomeçava, até a tarde se espreguiçar de cansada. Então, o pôr do sol, o fim do dia, o corpo suado leva em si o peso daquele verão, os sonhos perfumados do banho e da janta, pai e mãe à mesa, a tevê na sala sussurrando os scripts da novela, tudo tão longe, tão no fundo no tempo, agora refletido no menino do espelho. Nunca foi jogador de futebol. O pai certa vez disse: “Filho, procura outra coisa para fazer, isso não vai dar”. Nem precisou procurar, tanta coisa já o achou: as lágrimas em noites insones porque jamais a veria novamente, a menina da casa ao lado, quando a casa ao lado ficara na curva da estrada, em um bairro do que já era outra cidade, outra vida. Outro mundo abriu-se, tantas brincadeiras e desejos. Entre ambos, uma dúvida: serei o quê, serei quem? No vagar do tempo, essas dúvidas dissiparam-se em outras incertezas: para onde ir, quando parar? Hoje, diante do menino de 13 anos sorrindo no espelho, Reginaldo sabe: deixará para trás camisa e calça, vestirá short e camiseta e sairá por aí, inaugurando um novo tempo, sonhando um novo porvir – como se ainda, atrás de si, não houvesse passado.