(Vanessa Rodrigues/AT) Se você pediu de coração, hoje é o dia: desfeita a confusão musical com São João, Santo Antônio está aí mais uma vez, firme e forte, pronto a patrocinar matrimônios. Mas é preciso conhecer suas manhas para usufruir de suas artimanhas. Sabedora dos arcanos mais recônditos do santo, e apaixonada por José, que não era santo nem nada, apenas o dono da quitanda do bairro, Ritinha colocou em movimento a roda de simpatias e mandingas para sensibilizar o alcoviteiro do amor. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Toda vez que visitava a quitanda, levava na bolsa a imagem do santo pintada à mão. Ao entrar, dar os bons dias, trocar amenidades sobre o tempo e cochichar as fofocas da rua, sem desviar os olhos de José, Ritinha discretamente abria a bolsa, enfiava a mão e esfregava o santo. Foi assim por meses. Até que um dia, impaciente, esfregou tanto que a estátua virou pó de gesso. Ritinha nunca mais foi à quitanda e acabou casando com Onofre, que era professor de matemática, pouco dado a superstições, mas que gostava de Ritinha desde o jardim da infância. Ao que consta, os dois são felizes para sempre até hoje. Luís e Manoel eram melhores amigos. Luís costumava ligar para o Manoel querendo saber do Mário. À pergunta fatídica, “Que Mário?”, vinha a resposta censurada, seguida dos xingamentos de praxe. Mas a brincadeira só reforçava a camaradagem. Até que Manoel caiu doente. A doença respondia pelo nome de Lindaura, garçonete do bar do Toinho: sim, era doença de amor. Ao ouvir as lamúrias do amigo, Luís se prontificou a ajudar. Primeira medida: mandou Manoel arrancar a bermuda de tactel com o desenho do diabo da Tasmânia na bunda e colocar uma calça jeans de cantor sertanejo. Depois, fez ele vestir uma camisa social do pai, ainda que dois números maior – era mais distinto. Deu-lhe um pote de gomalina para passar no cabelo. E fez Manoel engraxar o sapato bico fino de couro furtado do quintal do Jessé, o fiscal da prefeitura. Por fim, colocou um ramalhete de flores na mão do amigo e partiram. Quando chegaram ao bar, as conversas pararam, as vozes calaram, a cerveja sendo servida congelou no ar e todos os olhares se dirigiram a Manoel, que ficou vermelho como uma queimadura de terceiro grau. Indiferente com a comoção, frequentador assíduo da casa, Luís foi até a prateleira de bebidas e pôs de cabeça pra baixo, apoiada numa garrafa de conhaque, a imagem de Santo Antônio que deixara mais cedo com o Toinho. Levou Manoel a uma mesa vaga e mandou quem olhava cuidar da sua vida. As vozes voltaram a pipocar, as conversas foram retomadas, as cervejas fluíram nos copos. Lá no fundo, avistaram Lindaura. Luís fez um sinal, chamou a garçonete. Manoel suava frio. Ela se aproximou em um pois não sorridente, Luís chutou a canela de Manoel, que prontamente se levantou e ofereceu o ramalhete. Lindaura sorriu embevecida e estendeu os braços às flores, quando a imagem de Santo Antônio escorregou da prateleira e se espatifou no chão. Nesse instante o rosto de Lindaura contraiu-se, ela deu um passo atrás e, ao pegar o ramalhete, enfiou-o na cara de Manoel, que acabou engolindo metade de uma tulipa. Os dois amigos saíram do bar discretamente e nunca mais voltaram. Tempos depois, Lindaura fugiu com um motoqueiro cantando Born to Be Wild. Traumatizado, Manoel ficou solteiro e continuou caindo na pegadinha do “Que Mário?”, anos depois já pelo filho de Luís, de quem foi padrinho. Ufa, ainda bem que não precisei rogar a Santo Antônio. Vai saber onde Luciana estaria hoje. E é difícil imaginá-la em qualquer outro lugar do que aqui, lado a lado com cada palavra, nas páginas da vida.