(FreePik) Minha esposa adora atemoia. A quem não sabe – como eu não sabia, confesso sem vergonha alguma –, atemoia é uma fruta. E é uma fruta feia: tem cara de fruta-do-conde, mas é outra coisa. Seja pela maciez ou pela cor, de um branco meio cinza, por dentro até lembra uma pera. A inteligência artificial me disse que é um híbrido da própria fruta-do-conde com cherimoia (outra fruta de que nunca ouvi falar). Ou seja, a atemoia é tão artificial quanto a inteligência que me entregou sua origem. Faz pouco tempo que minha esposa deparou-se com a atemoia. O feirante ofereceu, ela hesitou, armou-se da típica cara de temor de um ser humano diante do desconhecido, mas resolveu pegar um pedaço. Adorou. E eu? Nada. Minha coragem não foi tanta para abrir o paladar à atemoia. Como disse, ela é feia. Mas minha Luciana é enfática: quem vê cara, não vê polpa. Prefiro o mistério da manga. Da casca cheirosa ao improvável caroço. Sim, pois quem imaginaria que no meio de tanta doçura haveria um caroço de partir os dentes? Me parece uma piada divina colocar um caroço daquele tamanho na manga? Se eu pudesse decidir, daria mais pano, quer dizer, mais fruta pra manga – em vez de caroço. Mas como sou um mero mortal, deixo esse abacaxi para a divindade. Por falar em abacaxi, é outra fruta de que sou fã. O abacaxi me lembra meu pai: era a fruta de que mais gostava. Minha mãe é que torcia o nariz. Mas... quer maior prova de amor do que descascar um abacaxi? Aliás, se existe uma fruta que nos ensina a humildade, é ele: deseja saboreá-lo? Primeiro, descasque-o. Só assim você irá descobrir porque o abacaxi é o único exemplar do reino das frutas a usar uma coroa. Quanto às uvas, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Aprecio aquelas nacionais, roxinhas. Tenho uma técnica para comê-las: pressiona-se a casca, vem tudo, engole-se até as sementes. Pura falta de paciência, reconheço. Mas essas uvinhas me lembram o Natal. Seus gordos cachos eram uma das atrações da cesta no centro da mesa, ao lado de pêssegos, ameixas, castanhas e frutas secas. Essas frutas têm seus aromas e sabores específicos, mas também têm muito mais: o carinho dos momentos que embalaram. Por isso, mesmo sem provar a atemoia, ela já é parte indelével de um lindo pedaço da minha vida.