(Pixabay) Entendo. Sim, compreendo perfeitamente a dor de cabeça, a pontada no estômago e o dedão latejando. Essa angústia que você descreve também não é novidade, tampouco é caso raro: muita gente por aí vem misturando calça com bermuda, alho com bugalho, girafa com unicórnio. Sinal dos tempos, vida moderna. Fez bem em vir, vou deixar uma receita de medicação para restabelecer o bom funcionamento do corpo, seja ele qual for. Primeiro, ao beber água, evite pensar. Concentre-se na água fluída boca adentro, descendo pela garganta: não existe mais nada no mundo nesse instante, apenas a água e você. É a única maneira de matar a sede. Já quando sentir o fígado apertar, cante. Abra a janela e solte a voz para a vizinhança toda ouvir, mas o faça com a força biliar que lhe está corroendo as entranhas. Nem por um instante duvide da música, pensando na loucura do ato de esparramar a voz pelo mundo: loucura seria embrenhar-se ainda mais na bile ácida. Por falar em bile ácida, muito cuidado com o lugar onde deposita a esperança: não o faça em qualquer altar, o preço a ser pago pode ser alto demais. A esperança, por si só, é um santo remédio. Imagine: você olha para todos os lados e se vê preso numa jaula. De repente, a esperança o impele a olhar para cima. Milagre: não há barras de ferro. Uma escalada do sonho e pronto: eis a liberdade. Mas, se mal administrada, a esperança cria prisões mais cruéis e duradouras. E nem me pergunte quem carrega o molho de chaves. Amém. Se o vizinho lhe bater na face esquerda, extirpe logo a direita. É desprezível demais para ocupar lugar no rosto. Mas quando se sentir isolado porque ninguém o entende, em vez de se achar um gênio incompreendido, olhe-se nu no espelho e terá a perspectiva correta das coisas. Por outro lado, se você sentir que é mais um na multidão, não se aflija: você é isso mesmo. Mas não é só isso: também é um ser único. Moral da história, equilibre o pêndulo: nem a última bolacha do pacote, nem um nada no mar de gente, assim, sem qualidade de adjetivo ou advérbio — ia escrever ‘mar de gente sem rumo’, mas cultivar a compaixão, outra recomendação básica desta receita, nos faz desejar que todas as pessoas se encontrem. Tente também se encontrar: afinal, você é um resumo de toda essa gente.