(Freepik) Meu avô passava as tardes quentes de verão no sofá da sala, na companhia do radinho de pilha. Fiquei ao seu lado em muitas dessas tardes. No rádio, havia um programa com um quadro ao qual os ouvintes enviavam histórias. Eram relatos de amor, desilusão, de dor. Havia também histórias de mistério, de fantasma. Eram as minhas preferidas, como acredito seriam as preferidas de qualquer criança de dez anos. Assim passavam as tardes. Assim se sucediam os verões. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em uma dessas tardes, na hora do jingle que anunciava o quadro, meu avô pegou o rádio e o desligou. Ao me ver surpreso, sorriu e disse: “Hoje você vai ouvir uma história de verdade”. Voltou seis décadas no tempo para relembrar um repentista que costumava passar na rua da sua infância, no Morro do Saboó. Ezequiel Elias era o nome dele. Batizado não com um, mas com dois profetas. Na inspiração celestial do nome residia seu talento: o tal Ezequiel Elias tinha fama de cantar o futuro em seus repentes. Bastavam os acordes do seu violão subirem pelos ares, invadirem as casas, para a criançada, e muitos adultos, correrem à rua: já lá despontava na esquina Ezequiel Elias, afinando a voz e a verve. Meu avô lembrou de uma vez em particular. Estavam todos à volta do repentista, esperando. Antes de começar, criou suspense e foi bem enfático ao dizer que faria uma premonição. Então atacou o violão e abriu a voz: “Dourado mico leão/Tem muita fome/E pesada mão”. Todos em suspenso, esperando mais. Ezequiel Elias não decepcionou: “Se o fruto está maduro/Nem pede licença/Colhe com o dente/Causa desavença”. Seguiu com a música, acelerou o ritmo. “Mas o que ele quer/O que lhe gosta/É de pétreo óleo/Lambuzar a cara branca/Cara pálida/Em sua casa branca/Sem eira nem beira/Nada sabe construir”. Ezequiel Elias de repente mudou a voz, como se fora dois: um Ezequiel, outro Elias. E cantou: “Haja mundo a esse mico/Amargo como quiabo/Se abre a boca sobre Deus/Quem fala é o diabo”. Para encerrar, subiu o tom: “Repito: haja mundo a esse mico/Haja! Haja!/Tomara/Resista a tal micagem/Pois se já falta graça/Na curva do horizonte/Logo ali defronte/Pode já estar à espera/A nossa desgraça”. Meu avô não entendeu nada. Eu também não entendi. Talvez o futuro não venha, talvez já esteja aqui. Se não vier, que siga seu rumo; se já estiver, nos mostre, por favor, por onde anda a esperança.