Caiu do lixo: poesia. Dia desses eu ia pela rua, um redemoinho enredou o latão na esquina, saltaram sacos, copos, canudos, plásticos melados. Uma folha de papel meio amassada rodopiou no ar e pousou aos meus pés. Do lixo, caiu poesia: “Quem me garante/Que ali adiante/Na vida/Por um instante/Não serei eu, de novo/Infante?/Ah, mas o tempo passou/Gritante/Eis o argumento/Mas sabe lá/Qual invento/Ainda virá/Me devolver o intento/De ser/Se não infante/Quem sabe/Um elefante?/Hierofante?/Diamante?/Tudo para não ser/Ao teu amor/Errante”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Poesia, do lixo caiu: quem ainda lê poesia? Ninguém. Aliás, nunca ninguém alguma vez leu poesia. Pois poesia não é para ler: é para ser comida – com os olhos. Poesia tem sabor, gosto das cartas marcadas de um jogo encerrado. Poesia é o espelho retrovisor do futuro. Pois só quem sabe o que é passado viverá em 3242 – ou no ano que vem. Não há por onde fugir da liberdade do verso – verso livre, pátria alguma. Meu peito, minha geografia: é por onde vai o mundo. Se me canso daqui, ali estarei. Mistura de rio caudaloso e vento diáfano, a profundeza do ar, a leveza da água: sou batismo, sou voo. A inconsistência, o único alicerce que se pode ter na vida. Tudo haverá de passar – em câmera lenta; tudo haverá de se repetir, tudo haverá de se anular – chama o VAR. Me deito na relva, já disseram do esplendor: parabéns pra eles, nesta data querida. Todas as datas são queridas, o ontem que me deixou, o amanhã que hei de conceber. O presente? Presente, diz o aluno na chamada, o braço levantado não alcança a janela, lá no céu onde os gaviões dão piruetas de tédio. É a mesma história de sempre: há quem tenha o que quer, há quem não queira o que tem e há quem desconheça ter o que quer ou não querer o que tem. Peguei o papel meio amassado, a poesia dançou diante dos meus olhos à música de seu tom, de seu ritmo. Mas como ninguém lê poesia, pensei em devolvê-la à lata do lixo. Estava para amassar o papel, parei: quem sabe haverá por aí olhos que nunca viram o que todo mundo já está cansado de ver? Se alguém houver assim, haverá fome: poesia se come. Dobrei o papel e guardei no bolso, à espera da próxima refeição.