(Freepik) Vania e Gerson estão casados há 44 anos, oito meses e 22 dias. Metódico, é ele quem conta cada minuto da vida em comum, como se o tempo em suas mãos fosse um brinquedo de montar. Há pelo menos 30 anos, em todos os finais de tarde, naquele instante mágico quando o sol se agarra ao horizonte e que as coisas e pessoas parecem feitas de fumaça, Gerson passa na padaria da esquina para comprar o pão francês crocante, a casquinha meio queimada saltando da massa, do tamanho de um palmo médio, que Vania adora saborear com manteiga. A cada dia desses anos todos, chova ou faça sol, a média está sempre igual, do jeitinho que ela gosta, graças às obras e artes do padeiro Antônio. A única coisa que mudou: Gerson enfim alcançou a aposentadoria. Estava mais relaxado para ir à padaria, de bermuda e chinelo, sem pressa, todo dia no mesmo horário. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Estamos em mais uma dessas tantas tardes. Ele entra na padaria, encosta no balcão. “Boa tarde, seu Gerson”, cumprimenta Cinara, a balconista. “Boa tarde. Nem preciso dizer, né?”, ele dá uma piscadela. “Já sei, já sei, seu Gerson”, ela sorri. “Mas hoje tem um problema”, ela diz, apreensiva. Gerson franziu a cara, surpreso. “Que problema?”. O Antônio adoeceu. Não veio”. “Isso nunca aconteceu antes”. “Pois é, mas hoje aconteceu”. Antônio olhou além da balconista, analisou o pão na prateleira: pálido, sem casquinha, até meio murcho, como se lamentasse a ausência do padeiro. Em trinta anos indo à padaria, pela primeira vez Gerson não sabia o que fazer. Levar ou não o pão? Tentava imaginar o que a esposa diria em ambas as situações. Haveria frustração? Reclamações? Pensaria o que dele? Decidiu comprar a média. Pelo menos, indicaria a sua boa vontade. Ao chegar em casa, estava a mesa posta, o café desenhando sonhos de fumaça contra a luz, a manteiga ao lado do prato dela, o pote de rosquinhas próximo ao prato dele. Gerson coloca o embrulho sobre a mesa e se senta. A expressão vaga, cheia de tempo passado, Vania se acomoda no lado oposto da mesa. Abre o embrulho do pão. Seu rosto se ilumina. Ela aperta a média, seus dedos afundam na massa fofa, cheira, acaricia. Passa manteiga com um largo sorriso de satisfação. Boquiaberto, Gerson descrê da cena. “Você gostou...?”. Como se arrancada de um devaneio bom, Vania dá-se conta do marido: “Só gosto do pão desse jeito”. “Mas...”, ele treme. “Eu sei”, ela diz, carinhosa. “Hoje é assim. Ontem, o tempo renega. Amanhã, que será?”