(FreePik) Quando eu era mais jovem do que hoje — o que equivale a dizer bem mais jovem, já que os anos se dilataram como o mercúrio dos termômetros à febre de 40 graus —, pois bem, nessa juventude cheia de graça e de antiguidade, me fascinava o mistério dos ônibus: de onde vinham e para onde iam ao cruzar a minha porta. Ou quase isso: havia um ponto no Canal 1, na esquina de casa. Nas longas tardes após a escola, entre um jogo de bafo, uma pelada na rua ou um novo recorde em algum jogo do Atari, encontrava tempo para me aboletar à janela do quarto de meus pais, na frente do prédio, de olho vidrado no ponto alguns metros adiante, à direita. Após dias de empenhada espionagem, percebi a primeira particularidade: ao passar indiferentes à minha curiosidade, zelosos em seus itinerários misteriosos, os ônibus, que eram amarelos, traziam escrito a palavra ‘Circular’ ao lado do número — o que me pareceu à época uma incongruência, tendo em vista que eram todos retangulares. Também constatei que a quantidade de passageiros crescia à medida que as horas avançavam. Notei que o final das tardes era especialmente dramático, com gente pendurada na porta, nas janelas, nos para-choques e até agarrada no teto, do lado de fora, como pobres piolhos em busca de um cabelo compassivo. Parece exagero, mas quem sou eu para contestar a memória de uma criança? Certo dia, ao voltar do mercado com minha mãe, passávamos em frente ao ponto no momento em que um ônibus derrapava nos freios. Parou. A porta se abriu, mas não havia ninguém no ponto. Desencaixei a mão da mão de minha mãe sem que ela percebesse, concentrada no peso das sacolas. Me esgueirei e entrei no ônibus. Catei nos bolsos umas moedas soltas, troco de padaria que costumava surrupiar, paguei ao cobrador e avancei a roleta. As portas se fecharam. O motorista engatou a marcha. A viagem começou. O ônibus acelerou pelo Canal 1 no sentido praia. Os ruídos monótonos do motor se encaixaram em meus ouvidos como outros silêncios. Os prédios altos e baixos, as casas e os comércios pareciam gritar ao correr desesperados pela extensão da janela, sumindo para sempre atrás de mim. As pessoas na rua a meus olhos cresciam em urgências de passado, em seu lento caminhar. Foi então que o sacolejo dos amortecedores lutando contra o asfalto malcuidado cessou. Senti o ônibus preencher-se de vazios, abraçar as levezas. Olhei para fora, ao redor já não havia mais prédios ou casas, comércios nem gentes, a água reluzindo calmaria ou o limo nas bordas do canal: tudo era branco. Estiquei o braço para fora da janela, toquei as nuvens: delicadas como as primeiras carícias da vida. Sumiram rápido, o céu abriu-se sem nuvens, estrelas surgiram como cachos de vaga-lumes. Ao ônibus singrar o infinito, nada havia a lamentar de passados ou ansiar de futuros. Tudo era presente, de um passar sem fim, à velocidade vertiginosa, mas pacífica, do ônibus. A minha pouca vida até ali era assim: vi-a estampada no vidro da janela. Sob quasares e buracos negros, observava meus sorrisos, minhas lágrimas, como se assistisse a uma tevê cósmica. Era tão pouco o que havia em dez anos, mas já é demais, quando é tudo o que se tem. Aprende-se sempre, até onde nada pode ser ensinado, pensei então. Ou penso hoje. Não sei se foi a dúvida do tempo ou nossa sina com as finitudes, mas o presente que parecia eterno foi sacudido no ônibus, de novo pesado de latarias. A mão firme de minha mãe já balançava meu braço: “Acorda, moleque! Onde você está?”. O ônibus se afastava, rugindo fumaça pelo Canal 1. Arrastado por minha mãe, fui para casa, vivi, cresci. De vez em quando, o menino de dez anos me visita em seu ônibus amarelo. Ele me lembra que é preciso duvidar das importâncias: a flor cresce é sem alarde.