Foto ilustrativa (Freepik) Luís Marcelo acordou naquele dia com a sensação de que seria melhor continuar dormindo. Não por cansaço, pois estava acostumado a levantar às seis da matina para ir trabalhar. Mas pela forte impressão de que deveria pular, ignorar, estrangular, enfim, rasgar do calendário aquele dia. Logo ao sair da cama, deu uma topada na mesa de cabeceira e viu o dedão do pé inchar na proporção dos pimentões vermelhos. Xingou, gritou, ameaçou jogar fora o móvel assassino. Mas não tinha tempo para isso, já estava atrasado, enfiou o pé no primeiro sapato que encontrou no armário e foi à cozinha. Esquentou a água, colocou na caneca e mergulhou a colher com o café solúvel. Misturou o café preocupado com o relógio. Largou a colher, ergueu rápido demais a caneca. O café girou na borda e atirou-se à camisa branquinha. Voltou para o quarto em uma nuvem de palavrões. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De camisa trocada, saiu de casa mancando. Na garagem, outra surpresa: o pneu do carro estava murcho. Quase chutou o para-choque, mas freou o pé ao lembrar-se do dedão. Atirou estepe e macaco no chão e trocou o pneu, furado como uma rosquinha de coco. Suado, descabelado e sujo de poeira, acelerou para o trabalho. Ao chegar no prédio, o elevador estava em manutenção. Subiu a pé os 11 andares equilibrando as tentativas de não encostar o dedão no piso com a necessidade de correr. Resultado: parecia disputar uma prova de marcha atlética com uma perna mais curta do que a outra. Chegou esbaforido no escritório, não reparou a porta de vidro encostada. Quem testemunhou jura que ele se estatelou como um pardal arrebentando-se na janela. Arnoldo, colega de mesa, começou a rir do galo na testa. “O chefe quer falar contigo”, avisou. “Tua cara tá pior que de costume, hein?”, e caiu na gargalhada. Luís Marcelo levantou as mãos em gestos obscenos. Dedão à parte, foi à sala do chefe pisando o mais forte que conseguiu. Não reparou no carpete embolado. Tropeçou, rolou pelo chão da sala. Derrubou a máquina de xerox. Parou ao pé da mesa de Arnoldo. “Que pique, hein, meu velho?”. Com a mão na boca, em concha: “Não esquece do chefe”. Transfigurado, Luís Marcelo levantou, deu um soco no ar. Quase arrombou a porta da sala do chefe. “O senhor quer falar comigo?”. “Já faz duas horas, seu Luís Marcelo”. “Tive uns contratempos”. “Todos temos contratempos, mas somos pontuais”. Luís Marcelo engoliu em seco, engoliu molhado, engoliu frases e palavras que dançavam tresloucadas na sua cabeça. “Sim senhor, chefe. É só isso?”. “Só isso? Você acha? Pois vá trabalhar e compense os contratempos.” Luís Marcelo saiu da sala. Mas em vez de sentar à sua mesa, parou, coçou a cabeça. Seu rosto se transfigurou. Então tirou o sapato e a camisa e jogou tudo para o alto. Balançou o dedão roxo na cara de Arnoldo e dirigiu-se à porta do escritório. Antes de sumir no corredor ainda ouviu o ex-colega, “Endoidou...”, enquanto a porta se fechava suavemente às suas costas. Na rua, ficou indeciso sobre que caminho tomar. Gostaria de voltar no tempo e mudar o passado. Mas só conseguia pensar no futuro: no dia mais azarado de sua vida, Luís Marcelo havia renascido.