( Carlos Nogueira/ AT) Não sei de vocês, leitor e leitora, mas, para mim, o fim do ano é uma época que desperta a melancolia. Não confundir com tristeza, não se trata disso. Mas de um sentimento em que a grandiosidade das coisas, dos risos, dos gestos, das memórias, é maior do que a própria vida. A lembrança de outros natais e festas de Ano-Novo ganha um arco no tempo: o passado toca o presente com a intensidade das novidades. Só que não há nada de novo: há somente uma chama intensa que só faz queimar. No peito não cabe, transborda. Tampouco é saudade, como talvez muitos de vocês cheguem a pensar. Não é a falta do que foi, nem a ânsia de que se materializem aquela sala, aquela mesa posta, aqueles aromas, sons e, até, silêncios. Ou retornem cálidos aqueles abraços, naquelas pessoas que já se foram. A sensação é indescritível. É como se sobreposições de imagens, o ontem e o hoje, enumerassem o tanto que já foi e dissessem: é uma ilusão, pois tudo continua sendo. Como se a vida não fosse uma sucessão ordenada no tempo, mas um carrossel, com seus altos e baixos, que no entanto se move em círculo e nos deixa sempre nos mesmos pontos. Talvez seja isso mesmo, o tempo é esse carrossel que gira em nós, e nossa percepção do tempo é que esteja equivocada. Talvez, as coisas, quando passam como não deveriam, retornam avassaladoras: em vez de nos conduzir, o carrossel nos atropela em saudades e tristezas. É preciso deixar o passado ir, para melhor resgatá-lo como peça fundamental a um futuro saudável. Pois, quando queima no peito o fogo da memória, não é para me consumir, mas para me ampliar, abrir às estrelas as portas e janelas da alma, preencher de significados o que carece de sentido. Quando o peito queima no passado, eu vejo o futuro: em quem e no que fui, serei. Por isso, e que me desculpem os búzios, as runas, os tarôs, já a postos para perscrutar o que haverá em 2026, quando o peito queima no passado, o que me invade é a certeza de que a vida só é bela por uma razão: entre o nascimento e a morte, tudo é mistério. Feliz ano novo, ontem, hoje e sempre!