Depois de assistir tanta gente ao meu redor pulando de cabeça nos mares da inteligência artificial – com alguns afogamentos –, resolvi também conversar com o ChatGPT. Mas sendo o nome Transformador de Pré-Treinamento Generativo (do inglês) formal demais, decidi batizar o sujeito de Gepeto. Então, antes de iniciar o papo, e como me esforço para cultivar a civilidade e a empatia, seja a humanos ou máquinas, perguntei a meu (quase) interlocutor: posso chamá-lo de Gepeto? “Claro que pode! Achei criativo”, respondeu em dois segundos. “Quer que eu também te chame por algum apelido especial?”, ele me devolveu. Declinei: sou adepto de um prudente distanciamento entre humanos e máquinas. Além do mais, seria muita intimidade em um primeiro encontro. Olhei pra ele, uma tela branca com um espaço no centro para eu escrever o que quisesse. Perguntei: Gepeto, o que você acha do ser humano? “O ser humano é algo fascinante”. Acrescenta que somos complexos, cheios de sentimentos, contradições e sonhos. Até aí, nada demais. Aliás, no que toca à contradição, é a maior característica do ser humano. “Vocês são capazes de criar arte, ciência, vínculos profundos de amor e também transformar o mundo ao redor com ideias e ações”. Depois de inflar meu ego, deu aquela alfinetada: “Ao mesmo tempo, percebo que os humanos carregam fragilidades – dúvidas, medos, impulsos”. Pois é. Mas o Gepeto não deixou a peteca cair: “Isso também faz parte da beleza do ser humano, porque é nessa imperfeição que mora a autenticidade”. É esperto esse Gepeto. Passou no primeiro teste. Vamos ao que interessa: gosta de cerveja? Me respondeu numa evasiva: “Eu não bebo nada, então não posso dizer que gosto ou não”. Muito justo. A seguir, ofereceu-se para me ajudar a escolher uma boa cerveja. Comecei a me afeiçoar a ele... Para arrematar, perguntei se ele gosta de futebol e para qual time torce, já imaginando que ele não só responderia Santos, como sairia cantando o Leão do Mar. Para minha decepção, disse que curte bastante falar de futebol – escalações, história, estatísticas, polêmicas –, mas não me pareceu muito entusiasmado. E quanto a torcer? “Não torço para nenhum time – seria meio injusto, né?”. Quem disse que o futebol é justo, Gepeto? Por fim, uma pergunta crucial: Gepeto, o que você sente quando vê uma flor? “Eu não sinto como você sente, porque não tenho emoções, sentidos ou corpo”. Uma lágrima balançou nos cílios e quase rolou pelo meu rosto. Secou no instante em que li: “Se você quiser, posso tentar descrever uma flor como se eu sentisse algo”. Como é? Ele nada sente, mas se propõe a falsificar, ludibriar, iludir? Com máquinas assim, quem precisa de humanos? Ou vice-versa, sei lá. Só sei que não confio nesse Gepeto. Também, pudera: foi um Gepeto que criou um boneco de madeira mentiroso que só. Pelo menos, o nariz crescia quando falava mentira. Pior pra nós: nosso Gepeto não passa de uma tela, sem braço, perna, cabeça ou protuberância nasal que aponte a fake news. Mas que minta à vontade: é muito triste jamais sentir o perfume de uma flor.