(Vanessa Rodrigues/AT) Feira livre. O nome sempre me intrigou. Pois o que seria uma feira presa? E, se fosse presa, estaria em regime fechado ou aberto? Talvez dependa do freguês, dividido entre a barraca da verdura e a do pastel. Mas por que a feira tem que ser livre? Não pode simplesmente ser feira? Quem sabe o livre tenha o sentido de ‘faça o que quiser’, na feira se pode tudo. Não fosse a liberdade tão grande, até caberia na pobreza de ser resumida ao fazer o que se quer. A feira faz e tem história. Das senhoras de sacolas penduradas no antebraço, recurvadas sobre mangas e apalpando os mamões, aos urubus mansos nos telhados, esperando a sua vez de entrar em ação na cadeia alimentar, a feira é a terra onde há de tudo e onde todos se encontram. Mas onde estará a mulher bonita que não paga, mas também não leva? Talvez já tenha sido a minha mãe. Toda quinta-feira, lá ia ela puxando o carrinho de latão, trepidando pela calçada irregular, comigo a tiracolo. Aos olhos da criança, feira é arco-íris sem o céu: na desordem das formas, cria-se uma festa de cores. É a acelga, que começa branquinha e vai esverdeando na ponta. Ou o sisudo brócolis, em seu verde chumbo. Entre as frutas, as cores são mais ricas. Só a melancia tem três — contando o vermelho da polpa. E, se o melão brilha como o sol, o dourado da manga é doce — e, de tão suculenta, a cor vira sabor. Mas nada consegue rivalizar com o chiado hipnótico do pastel fritando no óleo. Do alto de meus dez entediados anos, esperava impaciente a hora santa do pastel de carne. Certo dia, carrinho cheio, caminho de casa, a parada obrigatória: o pasteleiro. Minha mãe pede, eu pego, e quando vou dar a primeira mordida, não sei se a boca errou o alvo ou as mãos se atrapalharam: o pastel despencou, espatifando-se no asfalto em câmera lenta, como no filme de Hitchcock. Desolado, olhei o pastel despedaçado. Em seguida, mirei minha mãe. Novamente o pastel. E minha mãe: e não é que ela sorria? Pediu outro pastel como se nada tivesse acontecido. Peguei o novo pastel quentinho. Mesmo com as mãos trêmulas, tomei toda a precaução para engoli-lo em largas mordidas. Muitos anos depois, tive um debate com um amigo: onde começa a feira? Começa por onde se entra. E onde acaba? Por onde se sai. Nesse dia, do pastel morto no chão, depois ressuscitado em minhas mãos, a feira começou por onde entramos, mas de mim nunca mais saiu. E nem foi pelo sabor do pastel ou pela textura da carne: o que não desaparece é o sorriso da minha mãe. Coisas que nem a feira explica.