(Pixabay) Duvidar é viver. Sou um ‘duvidoso’ contumaz. Duvido até da confiança, que é a fiança emocional. Pois a gente sabe quanta atribulação um fiador pode ter... Duvidar é diferente de ficar em dúvida. Duvidar já é tomar partido, fazer a escolha: não acredito. Ficar na dúvida é um passo antes, é embaralhar-se entre duas — ou três, ou quatro, ou mil — opções. Enfim, duvidar talvez seja coisa do ofício de jornalista. Mas ficar em dúvida é para qualquer um — inclusive ao jornalista, que, afinal de contas, também é ser humano. Sim, eu fico em dúvida tanto quanto duvido. Às vezes, já começa de manhã: pão de queijo ou torrada com manteiga? Geleia de morango ou patê de sardinha? Para um bom café, um bom acompanhamento: à janela, bem-te-vi ou beija-flor? Há as dúvidas menos agradáveis, como as do começo do mês: atrasar a conta do celular ou o condomínio? Pagar à vista ou a perder de vista? No supermercado, a gôndola acena: biscoito, chocolate ou o honesto brócolis? Mas piores são as dúvidas imateriais ou existenciais. Por exemplo: perdoar o amigo que esqueceu o seu aniversário ou condená-lo todo ano na mesma data? Tem a clássica: casar ou comprar uma bicicleta? Depende de aonde se deseja chegar. Viver dez anos em mil ou mil anos em dez? Em ambos os casos, o tempo será igualmente implacável. Dormir sem sonhos ou sonhar acordado? Que se deixe o travesseiro decidir. Ir embora ou deixar-se ficar? Depende de onde se está e aonde se pretende ir. Mas uma boa dica é: se a cabeça já foi, o corpo será um detalhe. Da mesma forma, por que ficar, quando todos já foram? Se existe dúvida, haverá ao menos uma razão. Ou por que ir embora, já que todos estão? Serão ainda mais eloquentes as razões. Levo a vida ou a vida me leva? A circunstância há de definir. Sei pouco de muito ou muito de pouco? Importante é conhecer a medida da própria ignorância. E sobretudo, escolho paz ou ser feliz? Apenas quem confunde alegria com felicidade não sabe: só se é feliz em paz, sem dúvida alguma.