(FreePik) Cada um é cada um, já diziam alguns filósofos dos botecos das esquinas insuspeitas — e de tanto boteco, com o tempo, alguns filósofos acabam sendo também das boticas. Cada um é cada um: é o óbvio. Mas como às vezes o óbvio se torna corriqueiro, acaba esquecido, apenas para ser redescoberto de repente entre ahs e ohs de surpresa. Cada um é cada um não é dessa laia: é óbvia mesmo. Mas só a frase, na letra fria: no dia a dia do uso, nos atos das gentes ou em suas caraminholas, cada um nem sempre é cada um. Pois se cada um fosse cada um, por que criticar o novo penteado da vizinha do 71? Se lhe apraz os bobes, a felicidade dela haveria de bastar. Se cada fosse cada um, aquela tia jamais regularia a quantidade de pimenta no prato dos outros — é refresco? —, havendo sempre mais pimenta do que deveria, na medida do resultado da própria endoscopia. Se cada um fosse cada um, ninguém iria zombar do jeito tímido do menino que chegou ontem na escola. Ao contrário: porque cada um é cada um, iriam até ajudá-lo a enturmar-se. Se cada um fosse cada um, a vida de celebridade não seduziria ninguém, pois a própria vida teria importância única. Se cada um fosse cada um, seria incongruente fazer harmonização facial, sob risco de não se reconhecer no espelho, apenas para acenar aos outros como se outra pessoa fosse. Se cada um é cada um, ninguém haveria de permitir a intrusos sentar no lugar preferencial dos ônibus, ninguém jogaria lixo na rua, pois estaria sujando o próprio chão onde pisa, e ninguém furaria a fila da lotérica, já que tal furão não seria cada um, mas um qualquer. Se cada um fosse cada um, a polícia não correria atrás do ladrão e ao ladrão nem caberia polícia, pois do banco assaltado o butim já estaria distribuído aos moradores das comunidades carentes. Se cada um fosse cada um, a vergonha não seria pelo furo na camiseta, mas na cara de quem ainda acha que pode tudo, acima de cada um. O que, aliás, só ocorre em um país onde tantos são tratados como ninguém.