(IA/FreePik) O primeiro nem sempre é o melhor, mas nunca deixará de ser eterno. Pode ser o beijo? Pode. Mas neste caso não é. Carrego-o comigo aonde quer que eu vá, mas com ele a bagagem fica mais leve. Ele está guardado no armário, mas também está em cada palavra que sai da minha boca — ou da minha caneta, do meu teclado, da minha antiga máquina de escrever. É a ele que se reporta a memória mais minha, mais afetuosa, pois foi por ele que comecei a descobrir o amor-próprio e o próprio amor. Pode-se dizer que seja pequeno, mas não cabe no mundo: explodiu um universo em expansão no meu peito. Quando vou dormir, à minha revelia abre-se em janelas infinitas, paisagens sem muros ou rumos, mas mantém-se o mesmo, com suas cores hoje desbotadas e seus hiatos brancos amarelados. Levou-me ao sonho e retirou-me do devaneio. Com ele em mim, não há pesadelo: futuro e passado se entrelaçam, para que eu seja presente em cada passo, em cada cansaço, em cada maravilha, em cada ovo podre. Em cada dia e cada noite: na sucessão da vida, ele deu-me a segunda vida, pois para existir de fato é preciso nascer duas vezes: do ventre da mãe e de suas páginas. Salvou-me das frases feitas, afeitas ao defeito de encurtar pensamento. Pois se quem com ferro fere, com ferro será ferido, alguém sempre sairá ileso para contar a história, talvez com mais flores do que ferro, apesar das pedras no meio do caminho, que dessas sempre haverá. Se para bom entendedor meia palavra basta, a ele servem todos os entendedores. E se cabeça vazia é oficina do diabo, urge preenchê-la: a oficina ganhará cores, aromas e sabores, e talvez até fique mais diabólica, ao se compreender que o diabo é tudo aquilo que se desconhece. Tive sorte de ele ter me encontrado no lugar certo, na hora certa. Um minuto antes teria sido cedo demais. Um minuto depois, uma presença tardia e sem sentido. Foi na escola, que anda de mãos dadas com ele, ou ao menos deveria. Não por acaso, quem dele tem medo também é avesso às escolas. Pois aprender é um ato de coragem, especialmente quando se descobre que nada se sabe: foi o que ele me ensinou, ainda me ensina e haverá de ensinar até o dia em que o mundo não mais me desejar às suas costas. Esta crônica é uma homenagem a todos os livros que li, em especial, A Montanha Encantada, de Maria José Dupré, lá pelos idos de 1983. Ele foi o primeiro a me mostrar o lugar do coração: em algum lugar entre o mar e as estrelas.