(FreePik) Os cinco anos são a idade dos porquês. É por que para tudo, sem parar, tem até por que dentro de porque. Pais e mães nem sempre nutrem a paciência necessária para esses tantos porquês. Mas para cada por que, há sempre um porquê – não me pergunte por que, porque não saberia responder. De longe, sinto uma indisposição sua pela leitura desta crônica – por quê? Ah, deixa pra lá. O que importa é que as crianças de cinco anos têm razão: os problemas começam quando se deixam os porquês caídos pelo caminho. Aposto que você não sabe por que o céu é azul de dia. Até aí, nada demais. Mas você se pergunta por quê? No passar dos dias e anos, tendo já caminhado debaixo de milhares de céus azuis, o por que jaz pálido em um canto modesto da existência. Mas são os porquês que colocam a roda da vida para girar: por que o sol se move de leste para oeste? Por que a areia da praia tem mar? Por que temos dois pés, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, mas um nariz e uma boca? Por que os cabelos criam o vento ao serem remexidos? Por que o meu olhar vai mais longe quando miro mais dentro do que fora de mim? Quem tiver as respostas, parabéns. Mas como as crianças de cinco anos sabem, cada resposta geralmente abre nova frente de perguntas. Por que você foi embora justo naquela hora? Por que fico feliz ao ver minha Luciana? Por que a luz do abajur é mais fraca do que a do holofote? Por que o amor é sentido sem sentidos, no peito, no corpo, mas além dele? Por que o gato não late e o cachorro não mia? Por que a estrela é cadente no céu e decadente no palco? Por que eu me olho no espelho e às vezes vejo outra pessoa? Por que tem que doer logo o ciático? Por que ciático rima com ártico? Por que eu sou assim e você, assado? Deveríamos ser feitos de por ques. Ainda que não haja resposta, perguntar é não aceitar, seja de bom grado ou o desagrado. Perguntar por que mulheres ganham menos do que homens; por que azul é de menino e rosa de menina; por que existe racismo; por que todo mundo não é igual, respeitadas as diferenças; por que poucos têm tanto e tantos, tão pouco. Se perguntar não ofende, calar a pergunta é a ofensa: à verdade, à justiça, à vida. Em tempo: o céu é azul de dia porque as moléculas de ar da atmosfera espalham a luz solar. Como a azul tem pequeno comprimento de onda, é dispersada em todas as direções, ao contrário das outras luzes do espectro (como vermelho e amarelo), de espectro amplo, ficam concentradas. Viva a ciência. Mas prefiro pensar que o céu é azul porque alguém, um dia, resolveu erguer os olhos do chão, na ânsia de ver além. Mas por que?